E se ele se chamasse Barbosa?

Deixe um comentário

A revolução no Oriente Médio que derrubou ditadores, começou alguém que bem poderia ser um brasileiro, nordestino e camelô – como era Basboosa, o tunisiano.
Na manhã daquela sexta-feira, 17 de dezembro, Basboosa se levantou, tomou seu banho, fez suas orações e partiu empurrando seu carrinho para vender frutas e legumes no centro da cidade. Basboosa era camelô – com essa atividade, sustentava a família. Seu pai morrera deixando sete filhos, quando Basboosa tinha apenas 3 anos. A mãe se casara de novo, mas a saúde debilitada do padrasto obrigou o garoto a abandonar a escola antes de terminar o ensino secundário.
Aos 26 anos, o rendimento de Basboosa era irrisório, equivalente a R$ 250 por mês vendendo frutas e legumes no centro da cidade do interior onde vivia, marcada pelo alto desemprego e pela corrupção da classe dominante. Sua casa, de barro, ficava a 20 minutos a pé do centro. E era sob o sol escaldante que Basboosa empurrava seu carrinho todos os dias. Quando saiu de casa naquela sexta-feira, não imaginava que seria a última vez que percorreria a estrada de terra com seu carrinho. Chegou cedo, às 8 da manhã, a fim de garantir um bom ponto. Esperava vender toda a mercadoria, que pegara consignada na véspera.
Tudo corria bem até a chegada da polícia. Basboosa já estava acostumado. Desde criança, ele e outros ambulantes eram perseguidos pela polícia simplesmente por tentar ganhar a vida de maneira honesta. Normalmente, exigiam uma licença, mas o próprio governo local dizia que vendedores com carrinhos não precisavam do papel. Na prática, o que os agentes queriam sempre extorquir algum dinheiro.
Basboosa não conseguiu entrar em acordo com os policiais. Foi agredido, cuspido e ainda ouviu ofensas à memória de seu pai. O carrinho e os produtos foram jogados na rua, e os policiais ainda confiscaram sal balança. Revoltado, Basboosa foi aos órgãos públicos para protestar de forma civilizada. Tentou falar com o governador da região, na própria sede do governo, mas não foi recebido. Às 11h30, tomou uma decisão radical. Voltou à frente do prédio oficial, jogou gasolina sobre o próprio corpo e pôs fogo em si mesmo.
Basboosa não morreu imediatamente e foi levado ao hospital. Ele não era brasileiro, embora sua história de sofrimento, dor e humilhação pudesse ter ocorrido em qualquer lugar do Brasil. Não morava no sertão nordestino, embora o sol, a corrupção e o desemprego de sua terra sejam iguais a tantos lugares do semi-árido sertanejo. O rapaz era tunisiano e residia em Sid Bouzid. Basboosa era seu apelido; seu verdadeiro nome, que ficará para sempre na história, era Tarek Al-Tayyb Muhammad Bouazizi.
Depois de seu ato de auto-imolação, Basboosa agonizou por quase 3 semanas antes de morrer no último dia 4 de janeiro. Durante aquele período, uma verdadeira revolução começou na Tunísia. Assim que a ambulância partiu com Basboosa, uma multidão começou a se juntar. À tarde, já era uma manifestação e a polícia compareceu com seus cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo. A partir de então, com uma forte ajuda da internet e de suas redes sociais, os protestos tomaram conta do país. No dia 14 de janeiro, o presidente tunisiano Zine el Abidine Ben Ali terminava seus 23 anos de ditadura fugindo com a família para a Arábia Saudita, depois de não ser aceito na França.
Inspirados pelos acontecimentos na Tunísia, populações de outros países árabes também começaram a se rebelar. Os egípcios deram fim à ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak e o país encontra-se sob um governo de transição. A Líbia está em plena guerra civil – e quando este texto for publicado, é provável que o insano Muammar Gaddafi já tenha deixado o poder, vivo ou morto. Outros países como Argélia, Bahrein, Iêmen e até Arábia Saudita já veem nascer protestos e manifestações. A revolução ultrapassou fronteiras e a morte de Basboosa, que se imolou por sua dignidade, serviu que milhões de outras pessoas lutassem pela dignidade.
Mas e se Basboosa se chamasse Barbosa e fosse brasileiro? E se fosse um sertanejo nordestino, e não um árabe tunisiano? E se fosse um camelô no Rio ou em São Paulo e tivesse sido humilhado pela polícia daqui? E se ele tivesse colocado fogo em si mesmo em Copacabana ou na Avenida Paulista? Será que uma manifestação aconteceria, ou seu ato iniciaria uma revolução? Infelizmente, é provável que não. Se Basboosa fosse brasileiro, nordestino, camelô e se chamasse Barbosa, a única coisa que seu suicídio geraria seria um comentário do tipo: “Um vagabundo a menos na cidade!”
Carlo Andre Carrenho – Revista Cristianismo Hoje

Feliz Páscoa em 2011

Deixe um comentário

Dedico este texto a todos aqueles que repartem os segredos mais íntimos das suas vidas. São pessoas que estão buscando um conhecimento maior de si mesmas. Que querem viver melhor, com o outro, com o Sagrado e com elas mesmas. Pessoas que são corajosas e não temem em caminhar na direção dos seus sentimentos e das suas percepções. Enfim, não temem encontrar a própria vida com tudo que ela tem de desconforto e prazer!

Em especial para aqueles que me escolheram, para caminhar junto na busca de uma vida mais integrada!

OS SENTIMENTOS DE CRISTO

Novamente chegamos às comemorações da Páscoa. Entre feriado, ovos de chocolate, e bacalhau, quero convidá-los a refletir um pouco sobre as lições preciosas da Páscoa. Sei que nem todos acreditam na dimensão espiritual da Páscoa. Mas todos reconhecem que o advento de Cristo é histórico e dividiu o calendário em a.C e d.C.

Neste ano quero destacar os sentimentos de Cristo, que foram bem aparentes nos últimos dias que antecederam a Sua morte como bandido. Isto significa que coloquei meus olhos nos aspectos emocionais de Cristo, ocorridos na sua última semana de vida.

Choro – Cristo chora quando se aproxima de Jerusalém, prevendo a destruição que a guerra traria para a cidade. Não ficaria pedra sobre pedra;

Indignação – Quando chegou ao templo, no domingo, e percebeu os comerciantes usando o espaço do templo, vendendo, explorando e tirando proveito dos menos privilegiados socialmente;

Pavor, angústia e tristeza profunda – No Getsemâni quando foi orar;

Solidão – Quando voltou de orar e encontrou os discípulos mais chegados, dormindo;

Cansaço – Quando depois de uma noite sem dormir e ser interrogado várias vezes, não tinha mais forças físicas para carregar o madeiro…Simão, que estava voltando do trabalho, foi obrigado a levar;

Desamparo – Quando, na sexta-feira, pregado e já agonizante, gritou bem alto: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparou?”

Fico pensando que, muitas vezes prendemos o choro, negamos o medo, disfarçamos a tristeza, ignoramos o cansaço e silenciamos nossas situações de abandono. E simplesmente fazemos isto para evitar outros desconfortos. Mas quando não permitimos as vivências destes sentimentos em nós mesmos, percorremos caminhos onde sofrimentos e bloqueios maiores nos esperam.

Que nesta Páscoa tenhamos alegria para celebrar a Vida que ela simboliza! Que tenhamos coragem para ressuscitar a nós mesmos naquilo que sufocamos.

Que Cristo seja o estímulo para vivermos todas as emoções da vida.

Boa Páscoa em 2011

O Choro de Cristo

Deixe um comentário

Lucas, o médico, no relato sobre a entrada de Jesus, em Jerusalém, montado no jumentinho, registrou que: “Quando se aproximou de Jerusalém, viu a cidade, Jesus chorou sobre ela…”

Fico profundamente tocada com este choro. É um choro pela destruição que viria sobre Jerusalém. Sobre todos: adultos e crianças. Não ficaria pedra sobre pedra. Isto significa que as construções viriam abaixo. E Jesus deixa bem claro, é um lamento porque Jerusalém “não reconheceu a oportunidade que Deus lhe concedeu”.

Há choros de alegria, de surpresa, de dor, de saudade, de raiva, de impotência. O de Jesus foi de lamento. Em muitos choros temos parceiros. Mas este Cristo Jesus chorou sozinho. E chorou por pessoas que nem souberam do que foi chorado, ou se souberam foi depois que Cristo já tinha sido crucificado.

As vezes choramos sozinhos. Outras vezes choramos pelos nossos filhos; pelos nossos netos; por situações de calamidade; choramos também pelas vítimas de tragédias e choramos muito diante da perda pela morte.

Para mim, fica claro, que Deus, em Cristo Jesus, chora por mim e por você. Chora todas as vezes em que não vemos a oportunidade passar e a perdemos. Chora pelas possíveis destruições que muitas vezes trazemos sobre nós mesmos. E choro por esta razão, só pode ser um CHORO DE AMOR!

Jumentinho nunca montado…

Deixe um comentário

Quase chegando a Jerusalém, Cristo ordenou a dois dos discípulos que entrassem em Jerusalém e lá logo no começo da cidade haveria um jumentinho amarrado, nunca montado. Era para desamarrar e trazê-lo. Jesus entraria na cidade montado nele.

Minhas perguntas:

1 – Como se sentiram os donos deste jumentinho, quando souberam que era para Jesus? O que eles sabiam sobre Jesus?

2 – Jesus foi o primeiro a montá-lo. Será que alguém ousou montá-lo depois? O jumentinho ficou em alguma exposição de animais para ser visto por todos? O dono vendeu o jumentinho por algum valor bem mais alto do normal? Ou nada aconteceu?

De qualquer forma, os donos deste jumentinho puderam servir a Cristo cedendo o meio de transporte. E o jumentinho? É um animal de muita sorte: Foi montado pelo Redentor!

A Cura do Cego Bartimeu (Muito linda!)

Deixe um comentário

II – O segundo fato que reli, nesta semana que antecede a Páscoa de 2011, é sobre a cura do cego Bartimeu, que ocorreu na cidade de Jericó e foi registrado por Marcos. Que não foi discípulo, mas tudo indica que ele caminhou bem próximo de Jesus, pelo menos nos últimos dias da vida de Cristo. Alguns acham que ele é o jovem rico que Cristo mandou vender tudo que tinha e distribuir aos pobres. O texto está no Evangelho de Marcos 10. 46 a 52

Bartimeu, era cego e não surdo. Ouviu muito bem que algo diferente estava acontecendo. Era muito barulho de pés no chão e muito vozerio para ser algo cotidiano. Perguntou o que era. Disseram que Jesus de Nazaré passava pela cidade. Quando ele ouviu que era Cristo, começou a gritar desesperadamente: “Jesus Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” O uso da expressão “Filho de Davi” revela que aquele homem conhecia a linhagem de onde nasceria o Messias. Quer dizer, ele acreditava pela história da Torá, que Jesus era o Redentor.

Algumas pessoas, quando ouviram seus gritos, mandaram que ele calasse a boca. Mas ele gritava mais e mais. E Cristo ouviu seus gritos e mandou chamá-lo. Nossa, quando ele soube que Jesus o chamava, não teve dúvida, largou a capa e rapidamente pôs-se em pé e foi na direção de onde vinha a voz de Cristo. Questionado sobre o que queria, respondeu: “Que eu volte a ver.”

Imediatamente, recuperou a visão. Pulou de alegria e junto com a multidão foi caminho a fora seguindo Jesus.

Lições que me ocorreram:

1 – Quanto tempo, das 24 horas diárias que tenho, gasto em conhecer mais sobre a minha dimensão espiritual?

2 – O quanto estou atenta aos acontecimentos que passam por mim? Será que já perdi oportunidades porque estava desligada ou distraída com coisas menos sem valor, e não vi as oportunidades que passaram por mim?

3 – Quanto de coragem eu tenho, para não calar a boca, diante daquilo que acredito?

4 – Estou disposta a deixar de lado coisas as quais estou apegada e correr na direção da Vida, que abre os meus olhos e me ajuda a enxergar?

5 – Eu sei exatamente o que quero para mim e para a minha vida, se for indagada?

Fiquei pensando que, Bartimeu seguiu a Jesus e alguns dias depois Cristo morre crucificado no Golgota. Imaginei a tristeza no coração dele, até saber da Ressurreição, de ver morrer como bandido aquele que lhe restituíra a visão.

15.abr.2011 -11h42

Cristo Jesus e as Crianças

Deixe um comentário

Cristo sempre valorizou as crianças e teve tempo para elas.

Se fossemos repassar toda a vida de Cristo nestes dias que antecedem a Páscoa, estaríamos na última viagem dele para Jerusalém, onde culminou com sua morte na cruz e ressurreição.

Um dos eventos que gosto de reler é aquele onde Ele interrompe sua viagem para atender os pais que traziam as crianças para serem abençoadas. Percebo algumas lições esquecidas nesta história:

1 – Cristo ficou enraivecido com os discípulos que impediam os pais de chegarem perto dele, com as crianças. Indignado ordenou que os discípulos não atrapalhassem .

2 – Ele nunca esteve muito ocupado para não ter tempo para uma criança. Recebeu as crianças, pegou-as no colo e numa atitude paternal as abençoou.

3 – A indignação de Cristo aqui foi com aqueles que mesmo devendo ser pessoas esclarecidas, os discípulos, tinham atitudes onde as crianças eram excluídas.

4 – Cristo defendeu as crianças, que são indefesas e desprotegidas. Não se intimidou diante dos homens que eram seus seguidores.

PERGUNTAS REFLEXIVAS:

Nossas raivas tem a ver com nossos interesses ou nos indignamos diante de abuso para com os indefesos, como no caso as crianças?

Somos pessoas que amamos e protegemos as crianças, ou somos daqueles que ficam irritados com a presença dela e as excluímos de bênçãos, benefícios e direitos que elas deveriam receber?

Somos capazes de interrompermos nossas coisas importantes, parar e dar atenção a uma criança, como Cristo fez?

Somos capazes de descer na mesma altura de uma criança ou de pegá-la no colo, e olharmos em seus olhos dando toda a atenção para ela, ou simplesmente as ignoramos?

Escutamos o choro de uma criança, escutando também seu coração e suas necessidades, ou simplesmente a afastamos para não ouvir mais seu choro?

Meu Herói Venceu a Morte!

Deixe um comentário

Vovó, quem é seu herói? Perguntou-me perguntou Paolo, meu neto que na época tinha cinco anos. Devolvi a pergunta, antes de responder. Ele enumerou vários, uma vez que estava encantado com o poder dos heróis criados nas estórias infantis.Respondi: “Meu Herói é o JC.” “O que ele faz?” Disparou, o garoto. Tive que rapidamente organizar as idéias e transformá-las em linguagem infantil. Afinal o que eu mais desejava era revelar que o JC era superior, não usava de efeitos especiais e poderia mudar o sentido da vida.Afirmei: “Meu Herói é capaz de colocar cor e gosto na água, e ela fica linda e saborosa. Ele pega um pedacinho de pão e transforma num pão bem grande que dá para muita gente comer. Pega um peixe pequeno e transforma em milhares de peixes. Só de colocar a mão na cabeça de uma vovó doente, a febre foi embora. E quando um barco estava quase afundando por causa do vento e da chuva ele mandou a tempestade parar e ela obedeceu.” Ele ouvia com os olhinhos e ouvidos bem abertos, mas dava para ver que preparava uma resposta, na tentativa de enfraquecer meu Herói. E veio com a afirmação: “Mas tem uma coisa: Seu Herói não tem corpo forte, o meu tem. E se o meu encontrar o seu terá uma briga e o seu vai perder.” Ai, tive a oportunidade de apresentar o Herói que venceu a morte. E falei: “O JC, não se preocupa em ter corpo forte, nem em lutar. Sabe por que? Porque uma vez, um amigo dele ficou doente e morreu. O corpo já estava até apodrecendo, mas o JC chegou e mandou ele sair do cemitério e ele saiu.” Paolo ouvia já concordando que meu Herói era superior a todos que ele tinha. Eu continuei: E tem mais: “Uma vez, enganaram ele, e os policiais chegaram e o prenderam. Bateram, cuspiram, fizeram mil perguntas e finalmente ele foi condenado a pena de morte. Ele morreu numa sexta-feira, mas quando chegou no domingo a cova dele ficou vazia. Ele saiu de dentre os panos que enrolavam o corpo morto dele. Os panos ficaram lá como uma embalagem, mas dentro não tinha corpo algum.” “Ele viveu novamente?” O garoto perguntou. Respondi: “Sim”. Não só isto. Além dele ganhar da morte ele garantiu que eu e você, mesmo que a morte chegue, poderemos também, sair da cova e viver novamente.” Ele continuava me olhando, mas agora sem tentar me convencer que os heróis dele, tinham mais poder. Afinal, se tinha uma coisa que ele não queria era morrer. E na cabecinha dele se o meu Herói era mais forte que a morte, então ele queria.

Perguntei: “Você acredita no meu Herói? Ele respondeu: “Sim. Claro!”

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” João 11.25

* Publicado no “Cada dia com Deus” Meditações Holiness de 2011

Desconexão

Deixe um comentário

Na Bíblia a desconexão humana começou no Edem, após a desobediência . Por causa dos sentimentos de medo e vergonha, decorrentes por terem falhado, homem e mulher fazem uma cobertura para seus corpos, se escondem de Deus e quando se apresentam não assumem a responsabilidade pelos próprios atos. Todos concordam que a partir daquele momento, houve uma cisão entre o ser humano e Deus; entre o ser humano e o próximo e entre a pessoa e ela mesma. E desta forma já não sabemos identificar e ainda negamos o que sentimos. As vezes temos medo de pensar e em muitas situações nos tornamos escravos de nós mesmos. Falamos apenas meias verdades que por ser apenas metade da realidade se transformam em mentiras. E como nem sabemos mais quem somos acusamos os outros, e a Deus pela bagunça que muitas vezes fazemos com as nossas vidas. A psicologia vê as cisões como uma forma de proteção e defesa, de si mesmo, diante do desconforto e da dor. Na criança, estas desconexões são necessárias a sobrevivência. Mas na vida adulta é possível adquirir recursos para buscarmos tudo aquilo que estrangulamos em nós mesmos.

O interessante é que se ouve muitos sermões sobre a desconexão da pessoa para com Deus; alguns sobre a cisão entre uma pessoa e os outros, mas raramente se ouve alguma menção sobre a cisão de si mesmo.

É importante encararmos esta realidade, porque vivemos de acordo com estas divisões empobrecendo absurdamente a própria vida.

Esta desconexão separa o pensar do sentir, como se houvesse um corte no pescoço separando o corpo da cabeça. E uma vez separada, em si mesma, a pessoa passa a viver a vida apenas pela metade. Além disto, o comportamento resultante destas divisões ou revelam pessoas que passam por cima de si mesmas e dos outros, ou pessoas que agem apenas de acordo com os seus desejos e sentimentos sem se importarem muito com as conseqüências. E assim causam muitos danos aos outros e a si mesmos. O trágico disto é que tanto os primeiros como os segundos machucam e ferem desnecessariamente aqueles que estão a sua volta e que lhes são queridos. Os racionais ferem porque defendem as verdades que crê como indissolúveis e absolutas. E todos que estão sob sua influência terão que aceitar o que foi determinado. Neste tipo de relacionamento não há escuta amorosa e nem acolhimento. Não há espaço para que o outro se pronuncie e revele suas dificuldades. Só existe a opção de atender o que foi determinado, mesmo que o prescrito venha trazer prejuízos para quem obedece.

Os emocionais não param para pensar e avaliar o preço e as possíveis conseqüências que terão que enfrentar como resultado de ter seus anseios e vontades satisfeitas. Assim machucam porque agem considerando apenas o que pode ser bom para si mesmo e naquele momento. Ferem porque sentiram que deveriam fazer determinada coisa e fazem. Não se importam com o prejuízo causado a outros envolvidos. São pessoas que não conseguem conviver com o desconforto de ver que muitas coisas não saíram como ela queria. Ou não conseguem viver com a angústia da falta. Assim tiram o que não deveriam tirar ou deixam de dar o que é de direito de outros.

A boa notícia é que é possível fazer a integração destas partes separadas. Salomão, em Provérbios 16.32, declara que é mais importante dominar a si mesmo do que conquistar uma cidade. E Cristo, no evangelho de Lucas 9.25, nos alerta que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a si mesmo. O caminho da integração entre pensar e sentir, pode ser dolorido, cheio de vergonha, choro e sensação de menos valia. Em muitas situações se traduz entre o ocorrido no passado e o que se vive no presente. Nestes casos se faz necessário a reconciliação entre o agora e o que já passou. Afinal o passado mora em nós. Na fé cristã temos como referencial a vida de Cristo e o seu exemplo. O seu exemplo porque em sua genealogia estão presentes as histórias de pessoas que fizeram parte do seu passado e tiveram comportamentos não tão honrosos. E em sua vida porque há o seu sacrifício vicário, que nos acolhe em toda e qualquer vergonha, dor e desconforto.

Então da mesma forma que Cristo é o meio para a reconciliação com Deus, Ele é também o meio que dá suporte e possibilidade para a reconciliação consigo mesmo.

Se quisermos um viver abundante e com intensidade precisamos conectar tudo aquilo que em nós por alguma razão foi um dia desconectado.

Resgatando o Olfato!

Deixe um comentário

Gosto imensamente dos cheiros das flores: dama da noite e jasmim! Do café quando está sendo feito; do cheiro da terra molhada pela chuva; do cheiro da grama que acabou de ser cortada; dos pinheiros quando podados; da torta de maça, do pão quando está assando, da carne assada; dos temperos, dos aromas de canela, baunilha; da casa quando acabou de ser limpa; dos lençóis e toalhas cheirosos de pois de lavados, dos sabonetes que uso para tomar banho; do cheiro das peles dos meus quatro netos; das essências dos meus perfumes, com essências escolhidas pelo Kenzo. Enfim amo cheiros e aromas!

Visitei Roma no final do mês de maio. Era primavera. Havia jasmins por toda a parte. Nossa última refeição foi numa cantina pequena. Sentamos numa mesa embaixo de um jasminzeiro. Nada mais agradável. Ficamos ali, meu marido e eu, embebedados com aquele aroma inesquecível, que se misturou com o cheiro do vinho tinto que tomamos para acompanhar a massa do jantar. Puro prazer para lembrar enquanto tivermos memória!

É claro, há também cheiros desagradáveis. Muitos que comunicam situações de perigo, como o aroma colocado no gás para que saibamos que há vazamentos. Ou odores que indicam que temos algum problema de saúde. Ter olfato é sentir odores agradáveis e desagradáveis.

Quero terminar, por hoje, citando o ocorrido no evangelho de São João, quando Marta e Maria hospedavam Jesus pela última vez. Maria derrama um vidro de perfume nos pés de Cristo. E o escritor diz que “a casa encheu-se com a fragrância do perfume”. Esta cena me toca muito, porque Maria derrama o perfume e enxuga os pés de Jesus com os cabelos. Massagem deliciosa, preparando o Mestre para o intenso sofrimento que estava para chegar. O resultado deste gesto é que Maria e Cristo ficaram com o mesmo perfume. Quem passava por Cristo ou por Maria, sentia o aroma. E se passasse depois pelo outro identificava: “É o mesmo perfume”.

Resgatando o ouvir

Deixe um comentário

Shemah é um verbo em hebraico que significa “OUÇA”. Mas não é um ouvir qualquer. É um ouvir escutando de verdade tudo o que outro está dizendo e ou comunicando. Ouvir assim requer que se desligue qualquer conexão com os pensamentos que estão em outro lugar. É preciso se despedir de qualquer preocupação que não tem nada a ver com a pessoa que está ali na frente. Requer concentração no outro não só dos ouvidos, mas também do olhar e do próprio corpo. É ouvir a fala, mas também prestar atenção no que está sendo dito e na forma como a pessoa se expressa: o tom de voz, o olhar, a expressão facial e até a posição do corpo. Só ouvir a voz não basta. As vezes, nos trabalhos de grupo, coloco alguma música que entendo possa comunicar alguma coisa referente a situação em que o grupo ou alguém do grupo está experienciando. Em quase todas as vezes em que fiz isto, depois eu ouço: “Nossa, já ouvi esta música tantas vezes, mas nunca tinha prestado atenção na letra. Que demais”! Penso que é assim que fazemos também com as pessoas a nossa volta. Escutamos a voz, mas não sabemos o que elas estão falando e não ouvimos o que elas querem comunicar, ou comunicam sem querer.

Pior ainda é quando não estamos ouvindo e fingimos que estamos prestando atenção. Nosso corpo está ali mas nossos pensamentos estão em outro lugar ou em outro assunto.

Penso que o Shemah também diz respeito a capacidade de ouvir o que se passa a nossa volta, como o canto dos pássaros, o grilar dos grilos, o coaxar dos sapos o barulho da chuva, o movimento do vento, as ondas do mar, o movimento da água de uma fonte, o barulho das crianças, enfim, permitir que os sons se façam presente em nosso ser.

Penso que uma das razões que não ouvimos melhor o que vem de fora é porque também não somos capazes de ouvir o que vem de dentro de nós mesmos. Ficamos ensurdecidos para nossas vozes interiores. Tanto as de dor, como as de bom senso e sabedoria. Não ouvimos nosso corpo pedir descanso, ou clamar por qualquer outra necessidade, que poderia muito bem ser saciada por nós mesmos. Terrível é que muitos de nós não ouvimos o bater do nosso próprio coração! Muitos vivem alienados do próprio corpo como se fossem um estranho habitando numa carcaça desconhecida. Talvez por isso muitos de nós adoecemos, como se fosse uma luz que se acende no painel dando um alerta de pedido de socorro.

Como cristã que sou e fissurada em Cristo, me lembro milagre da cura do surdo-gago. Cristo colocou o dedo no ouvido do homem, olhou para os céus, suspirou e disse: EFATÁ, que quer dizer abre-te! E o homem passou a ouvir.

Que o Efatá aconteça nos meus ouvidos e nos seus!

Entradas mais Antigas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.