Por muito anos da minha vida o Natal foi uma data mais de dores e sofrimentos do que qualquer outra coisa. Quando pequena fui ensinada a colocar meus sapatos na janela, na véspera do Natal, que durante a noite Papai Noel passava e deixava um presente. Fiz isto por alguns anos, mas meus pais não tiveram a sensibilidade de colocar algum presentinho nos meus sapatos. Então pela manhã eu levantava ansiosa para ver o que tinha nos meus sapatos e nunca tinha nada. Eu me enchia de culpa. Achava que era ruim demais para ser lembrada por papai Noel. Ou então pensava que morava muito longe e ele não tivera tempo suficiente para chegar até minha casa. Pensava ainda que não tinha nenhuma importância. Era pobre demais para ser lembrada! Felizmente fui crescendo e descobri a verdade. Porém, descobrir que Papai Noel é apenas uma figura do Natal não tirou de mim o desconforto, a frustração e a tristeza, que ficara daqueles anos onde eu sofria tanto por constatar que meus sapatos estavam vazios. Então por muitos natais vinha a minha lembrança estes sentimentos de: sou ruim, moro muito longe e sou muito pobre! Por isso sou esquecida!

Quando já tinha 26 anos, no começo do mês de dezembro eu comecei a acreditar que Deus me amava porque sem que eu fizesse o menor movimento para caminhar na direção dele, Ele me achou e graciosamente me alcançou de tal forma que foi impossível continuar sendo a mesma pessoa. A crença de que Deus se fizera gente em Cristo e morrera na cruz para que eu tivesse Vida começou a fazer sentido para mim. Quando chegou o dia 25 daquele mês, pela primeira vez, eu comemorei o natal como a data em que se festeja o nascimento de Cristo. Mas ainda não tinha me apossado de todo o mistério que envolve esta data tão significativa.

Bem, na verdade, Cristo não nasceu no dia 25 de dezembro, mas isto nem faz diferença diante do significado verdadeiro do Natal!

Hoje Natal para mim, é a celebração dos céus descendo a terra; a distância entre nós e as alturas, desapareceu! O Eterno se torna limitado ao tempo. Natal é a fecundação do Sagrado no humano. Desta fertilização resultou a gestação e o nascimento de Cristo Redentor; é Deus descendo das alturas e nascendo como um bebê envolto em panos numa manjedoura no estábulo. O Todo Poderoso se torna dependente. Necessita do seio de Maria para amamentá-lo, do seu colo para o aconchego e dos seus cuidados para crescer.

A estalagem era o lugar de hospedagem e de reuniões para a troca de idéias; o estábulo, além de abrigar os animais, era o lugar para os esquecidos, para os mal vistos, para os ignorados. E foi lá que Maria deu à luz o menino Jesus. Deus “desceu” dos céus e começou sua vida como encarnado entre os simples, os transgressores, e os esquecidos. Viveu todas as nossas possíveis dores e conhece até os nossos impossíveis caminhos. Inocente e injustiçado, morreu como bandido cumprindo pena de morte. Então conhece também, até as situações, por mais degradantes que sejam, de um ser humano. Não há trilhas novas ou desconhecidas. Todas já foram abertas e percorridas pelo Deus que se fez gente. Diante disto, posso acreditar:

eu não sou esquecida, não moro longe, minha transgressão é perdoada, tenho muito valor, e sou presenteada com a Graça redentora em mim!

Que neste Natal você possa se alegrar com os presentes e com tudo que diz respeito à festa natalina! Mas possa também permitir que o Sagrado lhe penetre, e que esta penetração resulte na gestação da graça, da misericórdia e da redenção em você; e que ao nascer alcance você mesmo e todos os que estão a sua volta.

Então?! Rendamo-nos como Maria! E Deus nascerá em nós e de nós. Todos os dias!

É Natal!

“Mas para a terra que estava aflita não continuará na obscuridade…O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz….Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu…” Profeta Isaias Século VIII a.C.

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