Meus sapatos novos, bonitos e derrapantes…Minha queda espetacular!!!

Sapatos sempre foi algo importante na minha vida. Primeiro porque boa parte da minha vida eu vivi sem eles. Ainda me lembro, muito pequena, eu tinha apenas um par de chinelos de borracha e um par de alpargatas. Quando um pouco mais crescidinha ganhei também um par de sandálias de plástico. Mas na verdade a maior parte do tempo eu andava era descalça mesmo, pisando em lamas, formigueiros, pregos, espinhos, cacos de vidro e outras coisas que agrediam, as vezes violentamente a sola do meu pé. Mas sempre que via algum modelo de sapatos eu tinha muita vontade de calçá-los. Segundo, porque quando finalmente por volta dos sete anos tive meu primeiro par de sapatos o tamanho do meu pé não foi considerado. Eram usados e bonitos e vieram como presente em algum pacote de roupas que volta e meia chegava a minha casa. Conhecem o ditado que diz: “Pé de pobre não tem número.”? Pois é, eu sei o quanto isto é verdade. A minha ânsia de possuir sapatos era tão grande que rapidinho os calcei. Apertavam demais. Mas não desisti e com isto ganhei duas bolhas no calcanhar que viraram feridas e se fixaram na minha memória de tal forma que ainda me lembro muito bem do incômodo delas. E assim foi. Os sapatos eram apertados ou folgados, nunca confortáveis. Por isso acostumei com sapatos desconfortáveis e deformantes. Na verdade eu nem imaginava que pudesse existir sapatos, digamos até prazerosos. Isto me faz lembrar a canção Sapato 36, de Raul Seixas:
“Eu calço é trinta e sete, meu pai me dá trinta e seis;
Dói mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Pai eu já to crescidinho
Pague pra ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto.”

Lembro-me ainda de um sapato do pé direito, apenas com metade da sola. Eu ia para escola com este sapato. Tinha nove anos e quase morri de vergonha quando uma coleguinha, filha do chefe da ferrovia, descobriu o estado miserável do meu sapato. Ela, com ar de preocupação e compaixão, admirada, gritou para a mãe: “Mãe, olha como está o sapato dela.” E eu, sem saber onde me esconder, menti descaradamente, dizendo que só naquele momento estava percebendo a falta de sola.
O tempo foi passando e a vida foi generosa para comigo. Já casada e sem dificuldades financeiras comprava os sapatos que não apertavam os meus pés, mas também não me disponha a gastar muito e ficava nos pares que nem sempre traziam conforto. Com o tempo aprendi a ser bondosa comigo e também com os meus pés e passei a adquirir sapatos exageradamente confortáveis. Era como se não tivesse os pés calçados. Podia caminhar por muito tempo e meus sapatos não mais me apertavam. Porém, não eram os sapatos mais bonitos. Eu sempre me perguntava por que os sapatos baixos e confortáveis, não eram bonitos?
A terceira razão da importância dos sapatos para mim é bem recente. Encontrei sapatos de duas fabricas que me encantaram, pelo designer bonito: Os da Luz da lua e os da Claudina. Esta última produziu a marca “alla pugachova” (nome da cantora pop, russa, famosa) que são modelos lindos e confortáveis. Como há muito tempo deixei de ser miserável comigo, resolvi gastar um pouco mais e adquirir alguns pares de sapatos bonitos. Toda contente com a minha aquisição, calcei meu primeiro alla pugachova e sai para almoçar na companhia do meu marido. Na primeira esquina que cheguei, ao colocar o pé direito no rebaixo feito para as cadeiras de rodas, que são comuns na Vila Clementino, derrapei fantasticamente, deslizando como num espacate, até que meu corpo, com a perna esquerda totalmente dobrada para fora, encontrasse o solo. Levantei, com uma dor insuportável na região do joelho. Olhei para o sapato. Constatei o quanto a sola do meu novo sapato era lisa e escorregadia. Era como se ela tivesse sido encerada com parafina.
O resultado de tudo isto foi uma torção muito séria; muito tempo num pronto socorro, onde acabei por desistir do atendimento. Fui para uma clínica onde fiquei mais tempo na espera, porém agora recebia um tratamento cuidadoso. Sai de lá com a perna totalmente imobilizada com a duração prevista para três semanas. Finalmente os cuidados do meu médico ortopedista, que me receitou um antiinflamatório e solicitou um exame de ressonância magnética (êta exame chato) para confirmar se tenho algum ligamento rompido no joelho.
Sapatos? Parece que não me dou muito bem com eles. Acho que nem eles comigo. Deve ser por isso que adoro ficar descalça!
Agora já descobri que nas próprias lojas onde são vendidos há também adesivos antiderrapantes para as solas. Ou, nas sapatarias, os sapateiros colocam uma sola antiderrapante por cima da que vem da fábrica, protegendo assim as usuárias de quedas.
A pergunta é: Por que as fábricas famosas e bem sucedidas no mercado já não fazem este tipo de trabalho?
Bem, vou entrar em contato com a Claudina e mandar este artigo para eles.
Enquanto isto, experimento, como é que se sente alguém que tem uma vida profissional e cheia de atividades, como eu, e é forçada a parar, por causa de uma queda e uma perna imobilizada.

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