De onde vem a loucura?

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Transcrevi aqui um dos textos que mais me toca, e que acho que tem muito de verdadeiro, quando o assunto é loucura.

“O pássaro pintado”

…Especificamente, tentei mostrar que o homem social teme o outro e tenta destruí-lo; mas que, paradoxalmente, precisa do outro e, se necessário, pode criá-lo, de forma que, ao negá-lo como mau, pode confirmar-se como bom.

Estas idéias são apresentadas com habilidade artística extraordinária por Jerzy Kosinski em seu livro O Pássaro Pintado. O título refere-se a este tema: “O Pássaro Pintado” é o símbolo do Outro perseguido, do “Homem Manchado”.

A história é uma narrativa angustiante do que ocorre com um menino de seis anos de idade, morador “de uma cidade grande da Europa Oriental que nas primeiras semanas da segunda Grande Guerra (…) foi enviado por seus pais, como milhares de outras crianças, para o abrigo de uma vila distante”. Para proteger o filho das destruições da guerra na capital, seus pais, pessoas de classe media, o colocam sob os cuidados de uma camponesa. Dois meses depois da chegada do menino, a protetora morre. Os pais não ficam sabendo disto, e a criança não tem recursos para estabelecer contato com eles. Fica vagando num mar de humanidade, as vezes indiferente, muitas vezes hostil, raramente protetora.

Durante suas peregrinações pelos campos da Polônia devastada pela guerra, a criança vive, durante algum tempo, sob a proteção de Lekh, um jovem gigantesco, solitário, mas digno, e que ganha a vida como caçador. É este episódio que descreve de maneira comovente o tema de que, para a tribo, o Outro é um estranho perigoso, o membro de uma espécie hostil que precisa ser destruído.

Lekh ama uma mulher, Ludmila, com quem tem apaixonadas relações sexuais. Ludmila foi violentada quando menina e, quando aparece no romance, tem um desejo sexual furioso. Os camponeses a chamam “Ludmila Burra”. O episódio que aqui nos interessa ocorre depois de um período de separação entre Lekh e Ludmila. Vou citar o trecho todo:

“ As vezes, durante dias seguidos não aparecia na floresta. Lekh ficava dominado por uma raiva silenciosa. Fixava os olhos solenemente, nos pássaros colocados nas gaiolas, resmungando alguma coisa para si mesmo. Finalmente, depois de um demorado exame, escolhia o pássaro mais forte, prendia-o no seu pulso, e preparava tintas malcheirosas de diferentes cores, que misturavam com os componentes mais variados. Quando as cores o satisfaziam, Lekh virava o pássaro e começava a pintar suas asas, sua cabeça e seu peito com tons de arco-íris, até que se tornasse mais saliente e vivo do que um buquê de flores do campo. Depois íamos até a parte mais fechada da floresta. Quando chegávamos a esse ponto, Lekh retirava o pássaro e me pedia para segurá-lo em minha mão e comprimi-lo levemente. O pássaro começava a chilrear e atraía um bando da mesma espécie que voava nervosamente sobre nossas cabeças. Nosso prisioneiro, ao ouvi-los, se voltava para eles, gritando mais alto, enquanto seu coração, trancado num peito recentemente pintado, batia violentamente.

Quando um número suficiente de pássaros se reunia sobre nossas cabeças, Lekh me dava um sinal para libertar o prisioneiro. O pássaro levantava vôo, feliz e livre, um ponto de arco-íris num fundo de nuvens e depois mergulhava no bando que o esperava. Durante um instante os pássaros ficavam confusos. O pássaro pintado voava de um extremo ao outro do bando, em vão tentando convencer sua espécie de que era um deles. Mas, fascinados pelas suas cores brilhantes, eles voavam à sua volta, não convencidos. O pássaro pintado era empurrado para um ponto cada vez mais distante do bando, embora desesperadamente tentasse entrar nas suas fileiras. Logo depois um pássaro depois do outro o atacava violentamente. Em muito pouco tempo a forma de muitas cores perdia seu lugar no céu e caía ao chão. Esses incidentes ocorriam muitas vezes. Quando depois encontrávamos os pássaros pintados, estes quase sempre estavam mortos. Lekh examinava atentamente o número de bicadas que os pássaros tinham recebido. O sangue escorria de suas penas pintadas, diluindo a tinta e sujando as mãos de Lekh

Apesar disto Ludmila burra não volta. Para gastar sua cólera frustrada, Lekl prepara outro sacrifício de pássaro. Esta é a descrição de Kosinski.

Um dia, caçou um corvo grande; pintou as suas asa com tinta vermelha, o peito com verde e a cauda com azul. Quando um bando de corvos apareceu sobre nossa cabana, Lekl soltou o pássaro pintado. Logo que este se juntou ao bando, a batalha começou. Foi atacado por todos os lados. Penas negras, vermelhas, verdes e azuis começaram a cair nos nossos pés. Os pássaros voavam enfurecidos nos céus, e repentinamente o corvo pintado caiu ao solo arado. Ainda estava vivo, abria o bico e fazia uma tentativa inútil para mover as asas. Seus olhos tinha sido arrancados, e o sangue quente corria por suas penas pintadas. Fez ainda uma tentativa para levantar vôo da terra pegajosa, mas já não tinha forças para isso.

O Pássaro Pintado é o símbolo perfeito do Outro, do Estranho, do Bode expiatório. Com habilidade inimitável, Kosinski nos mostra as duas faces do fenômeno: se o Outro é diferente dos membros do rebanho, é expulso do grupo e destruído; se é como eles o homem intervêm e faz com que pareça diferente, de forma que possa ser expulso do grupo e destruído. Assim como Lekh pinta seu corvo, os psiquiatras tiram a cor de seus pacientes, e a sociedade como um todo mancha seus cidadãos. Esta é a estratégia maior da discriminação, invalidação e formação de bode expiatório. O homem busca, cria e atribui diferenças a fim de que possa alienar o outro. Ao eliminar o Outro, o Homem Justo se engrandece e exprime sua cólera frustrada de uma forma aprovada pelos seus semelhantes. Para o homem, o animal do rebanho, assim como para seus ancestrais não-humanos, a segurança reside na semelhança. Por isso o conformismo é bom, a divergência é má. Emerson compreendeu isso muito bem. Advertiu que “por toda a parte a sociedade conspira contra o valor de cada um de seus membros. A virtude mais exigida é o conformismo. A confiança em si mesmo é sua aversão”.

Quem quer que valorize a liberdade individual, a diversidade humana e o respeito por pessoas não pode deixar de ficar consternado diante deste espetáculo. Para quem acredita como eu acredito que o médico deve ser um protetor do indivíduo mesmo quando este está em conflito com a sociedade, é mais consternador que, em nossa época, pintar pássaros se tenha tornado uma atividade médica aceita, e que, entre as cores usadas, os diagnósticos psiquiátricos sejam os mais em moda.

Szasz Stephen. Thomas – A fabricação da loucura – Zahar Editores – R de Janeiro-1971 – páginas 21 a 23

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Caminhando como as Mulas

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Hoje amanheceu um dia lindíssimo aqui em Campos. Minha casa está entre as montanhas, numa altitude de quase 1.800m. Levantei animada e fui caminhar descendo e subindo pelos caminhos e ruas do bairro.

Lembrei-me então de um mês atrás quando caminhava com uma amiga em São Pedro, cidade do interior do Estado de São Paulo. O caminho também era íngreme e quando me dei conta, meu relógio Polar registrava a frequencia cardíaca, do meu coração, de 140 batimentos por minuto. Como já sou uma sexagenária, e não posso passar deste limite, eu disse: “Amiga, tenho que diminuir o passo. Meu coração vai sair pela boca, se continuar.” Ela, 10 anos mais nova que eu, riu e respondeu: “ Vamos caminhar como as mulas!” “Caminhar como as mulas?” Perguntei curiosa. Ela respondeu: “ Você já percebeu que as mulas quando sobem um caminho íngreme elas vão de um lado para o outro em viés. Desta forma elas dão passos a mais, mas se cansam muito menos.” Eu ouvia atentamente enquanto revirava a minha memória. Realmente lembrei-me da minha infância e também de filmes onde as mulas subiam as ladeiras em viés. Hum, eu achava que elas faziam isto porque eram burras. “Vamos experimentar?” Convidou minha amiga, interrompendo meus pensamentos. Topei na hora. E descobri que era quase a mesma coisa que andar num terreno plano. A frequencia dos meus batimentos cardíacos diminuiu, e meus joelhos, já com artrose, não reclamaram. Depois disto só ando as ladeiras de Campos do Jordão em viés. E dou conta de todas elas, sem problemas.

Mas não pude deixar de rir de mim mesma. Afinal, as mulas tem o que me ensinar!

Campos do Jordão, 10 de setembro de 2010

Aproximar…Distanciar!

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Penso que em todo relacionamento é preciso saber quando, quanto e como aproximar e ou distanciar.
Tanto a proximidade como o afastamento, exagerados impedem a espontaneidade e o fortalecimento do vínculo, necessário num relacionamento.
Ficamos perto demais porque temos a ilusão de que somos poderosos para evitar que o outro nos deixe. E longe demais para protegermos a nós mesmos da dor da separação , caso ela venha acontecer. Temendo que uma despedida aconteça, nos despedimos antes da hora. É o nosso vazio e o nosso medo do estar só, que nos leva a ficarmos perto ou longe demais. Mas só quem experimenta a própria solidão e mergulha para dentro de si mesmo, terá recursos necessários para saber chegar e saber sair da presença do outro, mantendo a própria integridade.
Nos exageros do distanciamento há uma frieza e da proximidade um aprisionamento que não favorecem o clima necessário para sermos nós mesmos na presença do outro. As vezes revelando, as vezes ocultando um pouco daquilo que somos. Só podemos abrir a porta para entregar o que é nosso, se estivermos livres e prontos, também para fechar esta mesma porta quando for necessário.
As vezes sem revelar nada. Apenas ficando em silêncio, para evitar que as palavras obscureçam o que pode existir de mais sagrado numa interação: o encontro De duas almas. Enfim o encontro do que há de mistério em si mesmo com o que há de mistério no outro. E é no encontro que um segundo pode se eternizar, concebendo algo novo entre eu e outro, de tal forma que jamais seremos os mesmos! E é na distancia que percebemos melhor o que do outro nos enriquece e nos fertiliza!
Que tenhamos coragem para experimentar o estar só, de estar consigo mesmo, para depois sem medo manter o espaço fértil que solidifica um relacionamento.
Encerro este breve comentário repetindo as palavras de Khalil Gibran:

“Cantem e dancem juntos e sejam alegres,
mas permitam que cada um também seja sozinho.
Assim como estão isoladas as cordas de um alaúde,
Embora vibrem a mesma música.
E fique lado a lado,
Mas não próximos demais uns dos outros
Pois os pilares do templo ficam afastados,
E o carvalho e o cipreste
Não crescem à sobra um do outro.”

Abraço, bem de perto, para todos!

12/02/2010

Catando Conchas

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Estou aqui em Florianópolis, capital de Santa Catarina, na praia Torres da Cachoeira. Como cheguei antes do início do Forum de Psicologia, tive muito tempo para descansar, ficar só, caminhar na praia e fazer uma coisa que gosto muito – catar conchas. Tenho muitas conchas de vários lugares do mundo. Algumas eu mesma catei, outras ganhei de pessoas queridas que se lembram do quanto gosto destes objetos e me trazem como presentes de suas viagens. Arrumei um vidro grande e ovalado e lá estão minhas preciosidades. Em algumas estão registrados o local de origem e a data em que foram catadas.

Por que gosto tantos das conchas do mar?

Porque elas me lembram as diversidades e as realidades humanas. Algumas estão inteiras, outras quebradas; algumas coloridas, outras brancas ou negras; algumas ainda estão grudadas a outra parte indicando que há pouco tempo havia um molusco dentro, outras já estão gastas de tanto ser jogadas pelas ondas nas pedras; algumas são grandes, outras minúsculas. Enfim tenho mais de mil conchas e nenhuma é igual a outra.

Sempre que olhar para minhas conchas me lembrarei que cada pessoa é única e especial e tem uma história de vida também única e especial, que vale a pena ser ouvida!

11/10/2009