Os órgãos do sentido: visão, audição, paladar, olfato e tato, não estão desenvolvidos quando um bebê nasce. Mas cada um destes órgãos possui estrutura suficiente para amadurecer e exercer sua função. É através da maturação destes órgãos que a vida pode ser sentida com mais intensidade. Isto é, as sensações de prazer, desprazer, alegria, tristeza, amor, rejeição e tantas outras ligadas aos sentimentos serão percebidas conforme a capacidade destes órgãos em transmitir as sensações captadas.

As experiências proporcionadas no ambiente e as vivências de interação com outros seres humanos que acelerarão ou não o desenvolvimento de cada um destes órgãos. Uma criança pode bloquear um ou mais órgãos do sentido como defesa e proteção de si mesma. Lembro-me de um exemplo: Cris, agora com 60 anos me contou que viveu num ambiente onde havia muitas punições físicas. Quando tinha onze anos e mais uma vez percebeu que levaria uma punição extremamente dolorida, resolveu que não sentiria nada. E assim foi. Cris bloqueou qualquer sensação proveniente do tato e ampliou a barreira também para os outros órgãos: “Eu vejo, mas não enxergo; escuto, mas não ouço; ingiro os alimentos, mas não me importa o sabor; percebo os cheiros, mas não me importa o odor!”.

Para mim, a pior conseqüência destes bloqueios é o amortecimento do lado emocional. A pessoa passa por uma robotização e vive como se fosse uma máquina que funciona e produz, mas não sente. O coração bate, mas não é percebido. Há muita execução de atividades, mas não há respeito pelos próprios limites. Há eficiência, mas não há compaixão. Nem para si e nem para outros. O bem até pode ser feito, mas não é por amor. É um tipo de vida que não passa pelo sentir. Fica pela metade. Passa apenas pela razão e pela vontade. As dores do viver são percebidas apenas com o lado racional. São pessoas prontas a espiritualizar o sofrimento. Não há misericórdia e nem acolhimento.

Cris conseguiu ressuscitar em si mesma, a capacidade de sentir. Começou com uma decisão de prestar atenção nas funções dos seus órgãos do sentido e lentamente resgatou a possibilidade de sentir com mais intensidade o que lhe dava prazer. E surpreendentemente viu que também se tornou capaz de sentir com profundidade a dor. Tanto a sua como a dos que estavam a sua volta.

Cristo Jesus é o nosso modelo de como ser humano. Ele, chora, entristece, enraivece, cansa, sente medo, sente pavor, se sente só, sente abandono, reclama companhia, enfim foi inteiro enquanto humano. Tinha todos os órgãos do sentido em plena atividade. Creio que Ele deve ser também nosso estímulo para se resgate a capacidade de sentir, caso ela esteja anestesiada.

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