Shemah é um verbo em hebraico que significa “OUÇA”. Mas não é um ouvir qualquer. É um ouvir escutando de verdade tudo o que outro está dizendo e ou comunicando. Ouvir assim requer que se desligue qualquer conexão com os pensamentos que estão em outro lugar. É preciso se despedir de qualquer preocupação que não tem nada a ver com a pessoa que está ali na frente. Requer concentração no outro não só dos ouvidos, mas também do olhar e do próprio corpo. É ouvir a fala, mas também prestar atenção no que está sendo dito e na forma como a pessoa se expressa: o tom de voz, o olhar, a expressão facial e até a posição do corpo. Só ouvir a voz não basta. As vezes, nos trabalhos de grupo, coloco alguma música que entendo possa comunicar alguma coisa referente a situação em que o grupo ou alguém do grupo está experienciando. Em quase todas as vezes em que fiz isto, depois eu ouço: “Nossa, já ouvi esta música tantas vezes, mas nunca tinha prestado atenção na letra. Que demais”! Penso que é assim que fazemos também com as pessoas a nossa volta. Escutamos a voz, mas não sabemos o que elas estão falando e não ouvimos o que elas querem comunicar, ou comunicam sem querer.

Pior ainda é quando não estamos ouvindo e fingimos que estamos prestando atenção. Nosso corpo está ali mas nossos pensamentos estão em outro lugar ou em outro assunto.

Penso que o Shemah também diz respeito a capacidade de ouvir o que se passa a nossa volta, como o canto dos pássaros, o grilar dos grilos, o coaxar dos sapos o barulho da chuva, o movimento do vento, as ondas do mar, o movimento da água de uma fonte, o barulho das crianças, enfim, permitir que os sons se façam presente em nosso ser.

Penso que uma das razões que não ouvimos melhor o que vem de fora é porque também não somos capazes de ouvir o que vem de dentro de nós mesmos. Ficamos ensurdecidos para nossas vozes interiores. Tanto as de dor, como as de bom senso e sabedoria. Não ouvimos nosso corpo pedir descanso, ou clamar por qualquer outra necessidade, que poderia muito bem ser saciada por nós mesmos. Terrível é que muitos de nós não ouvimos o bater do nosso próprio coração! Muitos vivem alienados do próprio corpo como se fossem um estranho habitando numa carcaça desconhecida. Talvez por isso muitos de nós adoecemos, como se fosse uma luz que se acende no painel dando um alerta de pedido de socorro.

Como cristã que sou e fissurada em Cristo, me lembro milagre da cura do surdo-gago. Cristo colocou o dedo no ouvido do homem, olhou para os céus, suspirou e disse: EFATÁ, que quer dizer abre-te! E o homem passou a ouvir.

Que o Efatá aconteça nos meus ouvidos e nos seus!

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