As vezes, eu mesma olho para minha história e custo acreditar que, realmente, eu gosto de estar casada e amo o mesmo homem por 41 anos. Entendo estas perguntas. Entendo também aqueles que ficam de olho para descobrir alguma coisa que justifique a afirmação: “Viu só. Eles não se dão tão bem assim.”

A maior prova de que meu casamento é bom é que no mês passado tiramos férias e por 21 dias ficamos juntos quase que vinte e quatro horas por dia. E, foi muito bom. Eu gostei de ficar tanto tempo juntos. E quando queria estar só, me afastava e ele sempre respeitou meus afastamentos sem me cobrar nada. O contrário também é verdadeiro.

Foi sempre assim? Não. Houve uma época da minha vida que me vi com todos os desejos da adolescência (fase que foi queimada na minha vida, porque eu tive que trabalhar e estudar muito duro até me casar), quando já tinha mais de trinta. E nesta fase tive muita vontade de “virar a própria mesa”. Mas eu me lembrava a cada momento que tinha uma responsabilidade para com meus dois filhos: cuidar deles. Tomei consciência também que meu marido não tinha nada a ver com as faltas da minha vida. E que, como marido, ele nunca supriria as minhas carências, da adolescência e as infantis E muito menos conseguiria suprir as carências que eram da minha história. Dolorosamente escolhi agüentar a dor da falta e seguir em frente, usando todos os recursos para fazer dar certo, enquanto der…

Aos poucos fui me dando conta: ali tinha um homem que as vezes era uma tremenda bênção para mim; outras um pesado fardo. Mas vi também, que eu era para ele a mesma coisa. O que fazer então, para que o peso do fardo não esmague a bênção e a alegria de Com Viver?

Só tinha um caminho: Encarar toda a verdade no que se referia a nossa parceria. Quem eu era? Quem ele era? O que me feria? E o que o magoava? O que contribuía para que ele falasse? E o que me ajudava a silenciar? Onde estava a bondade dele? E o que aconteceu com a minha força?

Encaramos: Nos ofendemos; choramos; silenciamos, nos afastamos. Retomamos: Mais ataques; mais ofensas; mais choro; distanciamentos. Reflexão: Eu estou errada, me perdoa. A resposta vinha: “Perdoada! Eu também estou errado em muitas coisas.” “Você está perdoado”! Eu declarava.

E assim chegamos a conclusão que o contrato que nos levara ao altar não servia mais. E conscientemente anulamos aquele contrato, e fizemos um novo.

Descobri:

Que a regra de outros pouco ajuda.
Que falar a verdade é muito importante, mas o amor que é fundamental, precede a verdade!
Que afastar, sem perder o vínculo, é tão importante quanto aproximar sem perder a individualidade!
Que a canção “EU TE AMO” do Chico Buarque (“…o paletó dele enlaçava meu vestido…o meu sapato ainda pisa o seu sapato…Como é que eu vou partir?”) é verdadeira e confirma: Pode até haver divórcio. Mas separação? Nunca mais. Um leva algo do outro e deixa algo de si…Por isso nos comprometemos muitas vezes e continuamos.
Que eu não sou mais a mesma mulher de 45 anos atrás; mas ele também é um outro homem.
Que não consegui mudar, nele, as coisas que achava que dava pra mudar…Quando ele sai da mesa, eu ainda empurro a cadeira dele para debaixo da mesa…
Que nossas vidas se entrelaçaram: eu tenho muito dele e ele tem muito de mim. Fecundamos um ao outro.Minha determinação está entremeada da compaixão que é a marca destacada dele; e os respingos da minha força consolidaram a bondade dele.
Enfim, gosto de voltar para casa, depois das minhas viagens ou do meu dia de trabalho; e percebo: ele gosta de me re-encontrar! Estamos alé do amor! Nos gostamos!

Então posso responder: Meu casamento não é perfeito. Ainda brigamos, mas é um BOM CASAMENTO!

Há a decisão de amar e a delícia de gostar!

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