Nesta semana, logo de manha, descobri que havia uma mudança saindo do meu prédio. Sempre é um transtorno  quando há mudanças porque apenas um elevador fica disponível para o uso dos moradores. Comentei com um dos porteiros,sobre as dificuldades que teríamos por ser justamente um sábado, quando todos fazem compras e chegam com muitas coisas que precisam ser levadas da garagem, na indisponibilidade do elevador, para o andar da portaria, onde chega o segundo elevador. Ele prontamente concordou. Ficou ali do meu lado, me fazendo companhia enquanto eu ajeitava minhas compras de supermercado. Pensativamente me falou: ” E o pior e que esta mudança não tem dono.” Respondi: ” como assim, não tem dono?” Ele respondeu: ” Quem morava neste apartamento era o Sr B…., ele faleceu. Três meses depois a esposa faleceu, e agora os filhos estão retirando tudo que tinha no apto.” Naquele instante, quem ficou pensativa fui eu. Imediatamente me lembrei do casal que morava neste apartamento. A mulher tinha falecido enquanto eu e meu marido estávamos viajando de ferias. Quando voltamos vimos afixado no elevador o anuncio de missa de sétimo dia. Entristeci com a constatação que a fila estava andando e mais uma pessoa idosa entre os moradores do prédio tinha falecido. Em seguida meus olhos se focalizaram nos objetos da mudança que aguardavam na porta do lado do elevador, na garagem, o transporte para algum outro lugar. Observei cada móvel: sofá, mesa, cadeiras, tv , armários, loucas, quadros e etc. Na minha imaginação comecei a pensar como cada uma daquelas coisas e daqueles objetos tinham sido usados. Imaginei os filhos a volta da mesa, os netos com os pés no sofá, a tv sendo disputada em razão da preferencia por algum programa. Enfim passou pela minha cabeça varias cenas rotineiras na casa de alguma família.

Sai dali entrei no elevador que me servia e subi para meu apartamento. Mas meus pensamentos continuaram, só que agora minha mente se voltara para minha própria vida: meus moveis, meus livros, minhas roupas, minhas bolsas, meus sapatos, enfim, minhas coisas. E comecei a me perguntar: como reparto aquilo que tenho? Como e a liberdade que dou para que as crianças sintam- se bem na minha casa? Qual o nível da minha implicância na luta para preservar alguma coisa de valor para mim?

Sinceramente? Não sou tão apegada a coisas, mas a constatação que depois da minha morte muito do que tenho ficara sem valor e utilidade alguma, fez com que no meu coração aumentasse o desejo de repartir ainda mais o que tenho. E de me importar menos se alguma criança faz do meu sofá um cavalinho. Ou se sujem o meu tapete. Ou que gastem sabonete demais no banho. Ou que usem minha louça mais bonita. Ou que brinquem com o meu iPad.

Claro, quero continuar zelosa pelo que conquisto e espero que as crianças também aprendam a serem zelosas. Mas cada vez mais quero que as pessoas que fazem parte da minha vida, ou que passem pela minha vida possam desfrutar também das coisas materiais que me pertencem!

Afinal, o que vão fazer com as coisas materiais que tenho, depois da minha morte? Não sei. Então quero usá-las o mais que posso, hoje!!!

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