TRIBUTO À ARY VELLOSO

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MEU MENTOR

Era 1974. Eu estava impactada com a mudança transcendental que experimentava na minha vida. Cristo Jesus fazia sentido para mim não só mais como figura histórica, nem apenas como um exemplo de vida mas como o Deus Filho que deu a vida para que todos que quisessem pudessem se livrar do peso da culpa e de uma vida sem significado. Minha vida mudou radicalmente depois do impacto desta descoberta.

Eu queria conhecer mais o Deus que virou gente nascendo como Cristo e resolvi fazer teologia na Faculdade Teológica de São Paulo. Lá conheci Ary Velloso, um professor que conseguia trazer os textos sagrados da Bíblia para o dia a dia. Estudávamos com ele uma carta de Paulo, do século I, escrita para os cristãos de Éfeso. E fiquei encantada de ver as explicações do professor. Tudo que estava naquela carta poderia ser vivenciado no cotidiano da vida. Por causa disto me aproximei mais ainda do professor e a partir disto eu e minha família passamos a conviver bem de perto do pastor Ary e sua família. Aprendi muito e fui fortemente contagiada pelas atitudes e pelo comportamento que vi na vida deste homem e o elegi, mesmo sem ele saber, como meu mentor no que diz respeito a fé e a conduta cristã.

Nesta mentoria experimentei a leveza da fé cristã. Fui liberada da carga pesada de freqüentar a igreja duas vezes no domingo. O evangelho era algo sério que exigia um compromisso, mas ao mesmo tempo leve porque em Cristo, o jugo é suave. Fui aceita com a minha família no convívio amoroso da casa do Ary. Algumas vezes tomamos refeições como famílias, viajamos juntos como preletores, participamos muitas vezes de retiros e congressos. Enfim muitos eventos e encontros fizeram com que a proximidade e o respeito mútuo aumentassem.

Trabalhei, coordenando o trabalho com mulheres por dez anos, junto com o Ary e os demais pastores que faziam parte da Igreja Batista do Morumbi. Foi um tempo de muito crescimento e aprendizado. É claro que tivemos muitas divergências. Em muitas coisas eu era (sou ainda) bem diferente. Até a minha maneira de ver e entender alguns textos bíblicos era bem diferente. Principalmente no que dizia respeito ao trabalho e vida da mulher. Mas o Ary sempre foi honesto e ficava bem claro, para mim, que seu coração era bondoso mesmo tendo posturas que eram contra meu jeito de pensar. Fui contrariada mas nunca desrespeitada. Aprendi a ceder e a abrir mão das minhas opiniões e idéias e descobri que não é preciso perder a identidade para caminhar em alguma situação o caminho do outro. Que era possível ser eu mesma naquilo que entendia ser minha vocação e desenvolver todo meu potencial mesmo não tendo determinado título ou posição. Grandes lições de vida que se consolidaram na minha vida, me ensinando a viver e a conviver com o diferente.

É claro que neste caminhar tão junto por tanto tempo machuquei, nem sei quantas vezes, e também fui machucada. Mas só tenho na memória as histórias, sem dor alguma, porque conversamos e sempre havia, pelo menos, o entendimento do que tinha acontecido. E na única vez em que fiquei ofendida, depois de dois dias o meu “mentor” Ary, me disse: “Quero lhe dizer que você esta certa. Eu errei. Arrependo-me do que fiz. E se fosse fazer hoje faria totalmente diferente. Você me perdoa?” Claro que diante desta palavra eu estava totalmente restaurada e já não tinha mais ferida e nem dor. Só lamentei não poder abraçá-lo naquele momento porque a fala era por telefone. Esta atitude me impactou profundamente e fortaleceu mais ainda a afeição que eu já tinha pelo Ary.

Anos depois quando já não trabalhávamos mais juntos Ary fez questão de me encontrar e perguntar: “Quero muito saber se existe alguma coisa, do tempo que trabalhamos juntos, que eu possa ter lhe ofendido ou feito algo injusto, que eu não percebi, e que possa ter prejudicado você.” Conversamos e lembramos que muitas coisas que tínhamos feito, se fossemos fazer novamente, seriam diferentes. Mas já não tinha nada a ser acertado!

Misteriosamente, no dia em que o Ary faleceu, eu estava em Londrina para ministrar um curso na UniFil. Estava bem perto dele. E mais mistério ainda, estava hospedada no Crystal Palace Hotel que fica a 20 metros da Primeira Igreja Batista, onde aconteceria o culto para despedida do corpo dele. As 15h fui para o templo e fiquei lá aguardando a chegada do corpo. E, além do pessoal que trazia o caixão, o responsável pela igreja, apenas eu e mais uma mulher estávamos naquele lugar para receber o corpo que era exposto para o velório.

Com certeza, recebi um grande presente que milhares e milhares gostariam de ter recebido: a oportunidade de olhar ao vivo (fiquei no velório por três horas) pela última vez o corpo que carregou a vida de uma pessoa que fez muito bem, para mim e para milhares. Emocionei-me. Muito. E ali, chorei por dentro e por fora.

Obrigada, Ary, pelo respeito e consideração.

Obrigada Ary pela honestidade e transparência.

Obrigada pelos aprendizados de vida e de convivência.

Obrigada porque você sempre foi gente.

Obrigada porque fica no meu coração apenas as boas coisas que me contagiaram, porque qualquer outra coisa que não foi boa, você mesmo se encarregou de tirar, reconhecendo seus erros e fraquezas.

Até um dia…

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PÁSCOA 2012

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Não consigo deixar de pensar nos significados das comemorações cristãs. E hoje comemoramos a ressurreição de Cristo. A fé cristá descoberta pelo meu pai, antes do meu nascimento, mudou radicalmente a minha história. Uma boa parte dos meus antecedentes eram irresponsáveis com os filhos, tinham várias mulheres e muitos eram alcoolistas. Alguns eram bandidos e assassinos. Eram violentos. Todos tinham nomes feiosos e sem significado. Ninguem estudava, tinham escassez de tudo e viviam na mais terrível miséria. Com o advento do cristianismo na vida do meu pai. Tudo mudou: ele se alfabetizou, documentou o nascimento de todos os filhos, escolheu nomes com cuidado e significado. Exigiu que todos estudassem, mesmo as meninas (pratica que não existia no contexto dele) e era rígido com a desonestidade com a vadiagem e falta de compromisso. Cresci no contexto de que havia um Deus resgatador. Houve um momento na minha vida que não tive para onde ir a não ser reconhecer que Cristo Jesus vive! Hoje eu continuo crendo e creio, também em todos os mistérios(o que não dá para explicar na fé cristã) e muitas coisas se fizeram e ainda se fazem novas na minha vida. Portanto minha meditação nesta páscoa, novamente, é sobre Maria de Magdala, para mim “a mulher que viu”.

MARIA MADALENA: O MELHOR ENCONTRO

Ela nasceu em Magdala e porisso ficou conhecida como Maria Ma(g)dalena.

Ela foi libertada por Cristo, da opressão mortal de sete espíritos malignos.(Lc 8.2) E desde então O seguia, nas curtas viagens que fazia, servindo-o com seus bens. Por causa disto até hoje muitos afirmam que ela tinha um caso com Cristo. O que não passa de difamação, uma vez que as escrituras registram apenas a grande afeição que ela tinha pelo seu Salvador e libertador.

Depois de Maria, mãe de Jesus, ela foi a mulher que mais se preocupou e mais esteve presente na crucificação, morte e sepultamento de Cristo. Ficou ali no Golgota até o fim. (Jo.19.25) E quando  José de Arimatéia, no final do dia de sexta-feira, conseguiu autorização para sepultar Jesus, Maria Madalena o acompanhou e observou com muito cuidado onde o corpo fora colocado.(Mt.27.61) Maria foi para casa preparar as especiarias que ela usaria para terminar o trabalho de embalsamamento. No domingo, Maria levantou bem cedo e com outras mulheres, foram até o sepulcro.(Mt.28.1) Ficou muito assustada quando deparou com o túmulo vazio. Correu para chamar Pedro e João, que vieram ao local e constataram que o corpo não estava lá. Os dois voltaram para casa, mas Maria ficou ali sentada, chorando desconsoladamente.(Jo.20.1 a 12)

Para ela era frustrante demais não poder prestar seu último serviço Aquele que tanto fizera por ela. Todos se foram, mas ela chorando, ainda insistia em localizar o corpo de Cristo  para levá-lo consigo.

E é o próprio Cristo que se apresenta, chamando-a de forma afetiva e dando a ela a mensagem mais impactante e transformadora de todos os tempos.

Maria Madalena foi e anunciou: “EU VI O SENHOR! ELE ESTÁ VIVO!”

Maria amou profundamente a Cristo até na morte. Buscou o corpo morto e se encontrou com o Cristo vivo. Chorou toda sua dor pela morte mas recebeu em primeiro lugar a notícia da Vida.

Meu desejo: Que eu tenha a mais profunda afeição por Cristo Jesus, que me resgatou e me libertou de uma vida sem sentido e medíocre. E que mesmo que todos desistam, indo embora, que eu permaneça até encontrar o Senhor da Vida.

PÁSCOA 2012

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O DIA MAIS LONGO

Fiquei me perguntando: Qual foi o dia mais longo? A sexta-feira da prisão e morte ou o sábado do sepulcro e silencio?

Penso que para Deus encarnado o dia mais longo foi a sexta-feira. Foi uma noite sem dormir, de quinta para sexta. Foi interrogado três vezes: por Anás, por Caifás e pelo Sinédrio, além de ter sido levado também a presença do rei Herodes.Tudo isto em menos de 24 horas a partir da sua prisão. Foi amarrado, açoitado no corpo e no rosto, ferido e enfim pregado na cruz que foi levantada no Gólgota. A morte de Cristo ocorreu por volta das 3h da tarde, mas seu sofrimento intenso começou no Getsêmane quando Ele entrou em contato com a angústia horrorosa que tomava conta de todo seu ser e transpirou sangue. Cristo ficou debilitado fisicamente e extenuado psicologicamente. Sucumbiu com o peso do madeiro e não conseguiu mais caminhar. Simão, que passava por ali, foi obrigado a carregar a cruz onde Cristo seria pregado.

Que dia longo, para finalmente ser declarado: “ESTÁ CONSUMADO!”

Se a sexta foi o dia mais longo para Cristo, penso que o dia mais longo para seus queridos foi o sábado. Cristo foi tirado da cruz, ainda na sexta-feira, por José de Arimatéia e colocado no túmulo novo pertencente a sua família. Para mim o dia de sábado foi o dia do nada. A cruz está lá no ch ao e vazia. Todo e qualquer raio de esperança desapareceu do coração dos seguidores. Ele, Cristo, morreu e não está mais na cruz. Enquanto se via o corpo haveria a esperança de que a situação poderia ser revertida. Mas agora o corpo esta no sepulcro. Sábado, antes do aleluia é o tempo do vazio. Do silencio sepulcral. Das esperanças frustradas. Da ausência, do desolamento, do desencanto, dos fins. Nada é pior que voltar do cemitério ou do crematório e dar de cara com o ACABOU! Enfim é o tempo onde a impotência toma a forma do oco do vazio e a dor deste vácuo abate de forma quase mortal! O sábado foi sem fim…

Este dia só fez algum sentido para Maria de Magdala, Maria, mãe de Jesus e outras mulheres, que entre lágrimas e tristeza, se ocuparam em preparar os ungüentos para terminarem os cuidados com o corpo morto de Cristo. Talvez por isso elas tiveram o privilégio de saber em primeiro lugar as mais novas notícias: Cristo vive!

Quantas vezes também temos dias longos. Dias longos porque a noite foi eliminada pela insônia! Dias de beijos enganosos; de proximidade falsa; de acusações distorcidas; de interrogatórios por aqueles que deveria saber quem somos. Angustia que dói até sangrar o coração ferido. Ferido, as vezes, por aqueles que dormem em nossas casas e comem em nossas mesas. Ou o dia é longo por causa do nada horroroso que se apresenta no lugar onde antes havia vida, esperança e presença. O cansaço domina e ficamos debilitados, e sem força alguma. Caímos prostrados e não vemos mais como caminhar…Que um Simão apareça, espontaneamente nos ajudar a caminhar até o Calvario. E lá contemplarmos Aquele que abriu o caminho da vida e o deixou alargado para passarmos com mais leveza e liberdade!

E que possamos enfrentar o que morre, como Maria de Magdala, até o final. Porque só quem vai até o fim pode ter a alegria de ver algo novo acontecer em decorrência e no lugar do que se foi.

Boa Páscoa para todos.

PÁSCOA 2012

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BEIJO CONTAMINADO

A crucificação, morte e ressurreição de Cristo tem significado profundo para cristãos e não cristãos. Perde os preconceituosos que, por não professarem a fé cristã ou desconfiarem de que Cristo não é Deus, deixam de se apossar das lições preciosas destas comemorações. Cada ano que passa, desfruto de novas descobertas e acredito que a páscoa e tudo que diz respeito a ela é tão cheia de mistérios que minha vida toda será pouco para chegar ao fim.

De ontem para cá estou pensando muito na questão da traição e do afeto envolvido na ocasião da prisão de Cristo. O afeto demonstrado por contato físico é uma das coisas mais prazerosas da convivência entre pessoas. O beijo tem muitos significados. Pode ser um cumprimento, gratidão, consolo, carinho ou desejo sexual. Judas usa o beijo, que na época era uma forma de cumprimentar dando boas vindas, ou se despedindo, como sinal indicativo que o beijado era o Cristo que deveria ser preso.

Pergunta: Quantas vezes somos como Judas? Que lança mão de um gesto que indica proximidade e acolhimento com falsidade e com intenções nocivas? Quantos a nossa volta se aproximam de nós, indicando intimidade e afeto, mas na verdade tem o coração corrompido com intenções impuras e enganosas?

Que Deus nos dê audácia para sermos corajosos e transparentes quanto as nossas motivações. E sabedoria para discernirmos as maldades a nossa volta de forma amorosa como Cristo fez.

PÁSCOA 2012

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Feliz Páscoa

Penso que é possível ser bondoso e não ter um coração misericordioso. Este texto, do Leonardo Boff, ajuda a ver que realmente ter misericórdia e caminhar um pouco mais, além da bondade! Faço dele minha mensagem de Páscoa para 2012.

http://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/03/nao-basta-ser-bom-importa-ser-misericordioso/

Abraço.