De 1987 a 1996

Casa nova. Vizinhos novos.

Nova rotina de idas e vindas.

Tudo novo. Tudo diferente.

Mas sou do tipo que me desapego logo. Por causa das muitas mudanças de casa na minha vida deixo para trás com muita dor, mas deixo, o que já não me pertence e me apego ao novo com unhas e dentes. E assim desfrutava de cada novidade.

Até que nossa casa foi arrombada e saqueada por duas vezes em menos de um mês, enquanto estávamos fora. Tensão, taquicardia, radar da apreensão ligado. Medo de sair e medo de entrar em casa…

Mudamos para um apartamento. Vigésimo quarto andar!  Era estranho. Sentia-me aprisionada. Mas da altura que estávamos tínhamos uma vista maravilhosa para a represa Guarapiranga! Era um colírio para meus olhos e um balsamo para meu coração. Todos os dias. Acho que de todos os lugares que morei este foi o de visual mais lindo!

Filhos crescendo e entrando na adolescência. Cada dia um novo desafio. Quem tem adolescentes, não tem rotina!

Com mais tempo disponível fui trabalhar por quatro horas diárias na mesma Comunidade onde, meu marido, era o administrador

Dedicação com muito afinco, como voluntaria, ao trabalho com grupos pequenos, congressos e aconselhamento feminino numa comunidade religiosa que tinha a frequência de mais de 500 mulheres.

Novamente descobri a dor do preconceito e da descriminação por ser líder e mulher. Na comunicação da forma diferente como eu via, era zero em assertividade (até hoje, minha nota é baixa…rs), entendi que o melhor era calar e continuar apenas naquilo que entendia que era um caminho possível no mundo masculino.

Algumas pessoas me decepcionaram muito. Vi-me ferida e em algumas situações muito dolorida! O sentimento era de injustiça. Não conseguia compreender porque meu potencial e talentos não eram aceitos para toda a comunidade. Mas entendi claramente que o tratamento que recebia não tinha nada a ver nem com a fé, e muito menos com o Deus que eu acredito. Depois desta clareza fiz o que me foi permitido fazer com alegria e contentamento.

Por outro lado, lindamente, muitas outras pessoas, homens e mulheres foram amorosos, generosos e bondosos para comigo e para com minha família. Não me faltou nada. Nem material, nem emocional e nem espiritual!

Filhos saindo de casa para estudar fora do país, numa época, sem WhatsApp, sem Skype e com ligações telefônicas caríssimas. Ainda guardo alguma das cartas dos meus filhos de quando moraram fora.

De repente recebo a um baita presente. A maior surpresa da vida. Uma família que me procurou para aconselhamento viu meu talento e facilidade nesta área e me presenteou com o pagamento dos cinco anos de faculdade de psicologia, caso eu passasse no vestibular.  Fiquei com medo, chorei, mas passeie encarei a faculdade de psicologia com muito esforço e afinco e consegui tirar de letra!

Morte do meu pai. Senti muito a partida dele. Meu pai marcou muito minha vida principalmente, porque era um homem simples, mas nunca foi machista. E num contexto de cultura nordestina onde só os meninos estudavam, ele decidiu e determinou que suas filhas não seriam analfabetas.

Ganhamos novos filhos. Hospedamos dois americanos. O primeiro por um ano; o segundo por ano e meio. E hospedamos também um coreano por três meses. Um sobrinho veio morar na minha casa por algum tempo. E quando menos esperamos, concordamos em cuidar e dar o melhor para uma garota de 14 anos, que não podia mais ficar na companhia da mãe e do padrasto. Hoje ela não tem nosso DNA, nem nosso sobrenome mas se tornou nossa filha!

Nesta década aconteceu mais um tempo de muitas descobertas a respeito d´eu mesma. Por uma exigência da faculdade de psicologia, fui para a psicoterapia semanal. E a partir do processo psicoterapêutico pude perceber o quanto eu apresentava uma imagem de forte para disfarçar todo o meu lado frágil, sensível e carente. Aprendi a gostar de mim forte/frágil; frágil/forte! Deixei de ser só “metade”¹

Filhos de volta. Faculdade de um deles e a minha. Estágios e mais estágios e finalmente as universidades, concluídas. Recebi meu diploma de licenciatura em psicologia e especialização para atendimento clinico, exatamente no mês em que fiz 50 anos.

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Foto atual de parte da sala onde trabalho e passo a maior parte do meu tempo.

Fui convidada a deixar o voluntariado que fazia na igreja e dei início ao que considero, a atividade mais nobre da minha vida, atendimento clinico em psicoterapia, no meu consultório!

Mais uma mudança. Meu marido, para facilitar minha vida , porque eu já trabalhava na Vila Mariana resolveu procurar um apto mais perto do meu trabalho e que nos favorecesse na velhice. E encontrou. Compramos!

De Interlagos para Vila Mariana. Na boca do metrô. De um lugar cheio de verde para a muvuca da Rua Domingos de Morais. Novamente tive que avaliar: vantagens e desvantagens. E decidi desfrutar das vantagens. A vista do Parque Ibirapuera. Ao longe, no Bairro Morumbi a vista do Palácio do governo. (Hoje com a construção de tantos prédios nossa vista foi quase toda interditada.) Era só descer no térreo do prédio e qualquer coisa que eu precisasse estava a meu alcance com apenas alguns passos: farmácia, supermercado, lojas, restaurantes, cafeterias etc.

Amo este lugar! E acho que desta moradia, eu só saio para a última viagem da vida. Pela morte.

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