GENTE QUE FAZ DIFERENÇA

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MINHA GRATIDÃO

Era um dia quente de sol. Levantei as quatro horas da manhã, tomei o café simples com pão caseiro e em companhia do meu pai rumei para a plantação de feijão para carpir todo o mato que teimava em querer sufocar cada um dos pés de feijão que brotava da terra. A tarefa era árdua e cansativa. O dia parecia ter muitas horas a mais que vinte e quatro horas. E as horas pareciam intermináveis. Depois do meio dia o sol era escaldante e as quatro da tarde, quando enfim poderíamos ir para casa, demorava demais para chegar.

Assim era minha vida aos doze anos!

Mas neste dia lá pelas onze vimos uma figura que vinha caminhando pela estrada em direção ao lugar em que estávamos. Quem seria a tão honrosa visita? Coisa difícil de acontecer naquele local. Não era o dono das terras. Não era nenhum parente. Quem poderia ser?

A medida que o espaço entre o caminhante e meu pai diminuía começamos a identificar. Era o pastor responsável pela igreja onde íamos aos domingos cultuar o Deus da Bíblia, que eu já tinha aprendido a crer que Ele existia. Surpresa total. E meu coração batia mais forte diante da expectativa sobre qual assunto faria com que aquele homem deixasse a cidade, pegasse um ônibus e viesse até aquele local, ao meu ver perdido no mundo.

Fazia um tempo, meu pai tinha pedido ajuda, para que alguma família me recebesse para que eu pudesse continuar meus estudos. Na época o que chamamos hoje fundamental II. Mas na ocasião, depois de procurar, o pastor não viu como me ajudar. Nem ele, nem qualquer outra família da comunidade religiosa.

Naquele dia o pastor veio até nós para perguntar ao meu pai se eu ainda queria continuar meus estudos. Meu pai, homem de visão e destituído de qualquer traço de machismo, disse que sim. E naquela tarde foi combinado que no final de semana eu iria morar na casa do pastor, ajudar com as quatro crianças e estudar a noite.

Meus dias de agricultora e também de escassez de recursos, acabaram naquela semana. Descobri várias frutas e alimentos que até então não conhecia. Mais brincava com as quatro crianças do casal, do que trabalhava. E ainda dormia na biblioteca da casa, onde delirava entre os livros que escolhia para ler, até desmaiar de sono e de cansaço.

Ontem foi a comemoração de noventa anos, de cada um deles (com a diferença apenas de alguns dias entre um e outro). Eu fui para a comemoração. E enquanto estava lá a emoção tomou conta do meu coração várias vezes, ao relembrar minha trajetória na vida, iniciada na casa deles. Hoje posso avaliar a coragem deste casal em correr riscos, em investir na minha vida, e em escolher me amar mesmo quando meu comportamento não foi adequado, acreditando nas minhas transformações.

Serei para sempre grata aos dois, e espero que este depoimento possa servir de estimulo a muitos que abrem mão de tanto e investem naqueles que nada tem.

Muito, mas muito obrigada mesmo ao casal Salovi e Cenyra Bernardo.

PARABÉNS PELOS NOVENTA ANOS!

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MINHA VIDA: Sétima década

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De 2007 a 2017

Muito aprendizado e novos ganhos!

Nesta década a alegria de ser avó foi ampliada. Chegaram mais quatro netos. E desta vez duas meninas. E cada um conquistou meu coração com o próprio jeito especial de ser! Gosto e amo cada um de jeitos diferentes. Mas tento ser justa com todos.  As vezes consigo…

Perdi mais uma parte do meu corpo. Meus cristalinos embaçados pela catarata, foram substituídos por lentes. E depois de 50 anos aposentei meus óculos! Heheheh!!!

Fizemos muitas viagens. Para dentro e para fora do país!

Na área espiritual, aprendi a experimentar a leveza do fardo e a suavidade do jugo de Cristo, como ele mesmo prometeu. O cristianismo autentico liberta. Quando volto a ler o evangelho é porque sinto saudades de rever novamente a vida de Cristo.

Algumas coisas doloridas e difíceis atravessaram minha vida, sem meu desejo e planejamento. Tive que me adaptar mais que uma vez a realidades que eu não esperava. Mas tenho escolhido ser a boa parte do inesperado dolorido que atravessa minha vida.

Esqueço algumas coisas que não deveria esquecer, mas percebo que há espaço para novos conteúdos! Há detalhes da natureza e aspectos da vida que só dá pra perceber e desfrutar depois que já se viveu meio século.

Década de muito aprendizado!

Joguei fora velhos conceitos que não me servem mais e “realidades” distorcidas que me impediam de ver com compaixão a mim mesma e ao outro. Mudei o roteiro do meu script de vida várias vezes.

Encarei minha finitude, mas prefiro viver do que ficar esperando a morte. Ela terá que me surpreender! E creio na ressurreição!

Aprendi:

Que na velhice as limitações vão acontecendo, mas é possível enxergar, ver e sentir muito mais que antes, mesmo que algum dos órgãos do sentido já estejam embotando.

Que sinto dores todos os dias. Algumas novas a medida que o tempo passa. Mas falar sobre elas não faz com que desapareçam! Há assuntos bem mais empolgantes!

Que as rugas carregam histórias!

Que é mais fácil cuidar do “fora” do que reformar “dentro”!

Que lágrimas se derramam pelos meus olhos, incontrolavelmente, quando vejo ou escuto sobre perdas e dor…

Que me emociono muito quando recebo afeto e aprovação. Pode ser de uma criança, de um homem, ou de qualquer pessoa que me vê…

Que ouvir é muito mais  importante que falar…Cada dia que passa falo menos…

Que para quem não quer eu não tenho nada pra dar;

Que para quem não quer ouvir, eu não tenho nada pra falar.

Que o que você faz marca muito mais do que o que você fala.

Que os que estão bem perto, muitas vezes são os primeiros a desprezar o seu saber…

Que é sofrido demais ver as escolhas feitas que trarão tantas dores, que familiares e pessoas queridas vão fazendo.

É preciso aguentar a dor da impotência de não conseguir impor nada, mesmo que, esteja certa, e seja para o bem do outro.

E é preciso ter estrutura física, mental e psicológica para aguentar os danos que virão para os queridos, que poderiam ser ter sido evitados…

Que gosto muito de crianças e jovens! E muitos deles gostam de mim!

Que gosto de viver!

Que ainda tenho sonhos! Vários! Mesmo reconhecendo que a maior parte da jornada da vida eu já vivi.

Que a morte tem pouco poder. Ela pode destruir o corpo que tenho aqui, mas não consegue destruir o que vou deixando nos corações e vida de outros.

Privilégio, fazer 70 anos!