MINHA VIDA: Sexta década

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De 1997 a 2006

Década marcada por muitos ganhos e muitas perdas!

Casamento dos filhos. Experiência linda de vê-los sair para cuidar da própria vida. De receber como “filhos” nora e genro.

Construção da casa na montanha! Nunca pensei que um dia teria duas casas, por causa do trabalho que dá no cuidado e preservação.Tenho duas casas e bastante trabalho. Mas amo, as duas!

Nascimento dos três primeiros netos. Delícia pura! Prazer indefinível! Cansaço e alegria. Ao mesmo tempo!

Convite da Editora Vida, para escrever, e “nascem” os três primeiros livros: Ressurreição Interior; Raiva; seu bem, seu mal e Depressão: tem luz no fim do túnel!

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Filho morando no exterior.

Tive muitos ganhos na vida e muitas perdas no meu corpo. Fui submetida a uma histerectomia (extração do útero e ovários) e algum tempo depois retirada da vesícula.  Experimentei fundo o vazio na alma, que a retirada de órgãos do corpo pode deixar. Lidei mais uma vez com a depressão e a tristeza de perder algo no e do corpo. Mas também descobri que o vazio do corpo pode alargar outros espaços. Principalmente o espaço dos relacionamentos.

Foi nesta década que elaborei todas as perdas que o envelhecer vai trazendo. Mas resolvi encarar cada passo do envelhecer. Fiz a despedida da força e da beleza da juventude. O que já fui ficou nas fotos. O que tenho está aqui e há muito o que fazer além dos atributos dos jovens. Decidi assumir as rugas; cada uma tem sua história. Assumi também as gordurinhas que a mudança do metabolismo vai trazendo, sem me entregar ao sedentarismo. Minha alimentação tem bem menos comida, mas com muito mais qualidade. O comer e beber perde muito da sua importância e outras prioridades entram no lugar. Tenho mais prazer em ver um filme do que gastar tempo no preparo ou na espera de uma alimentação.

Aproveitamos muito da nossa casa na montanha. Nesta casa tivemos encontros significativos: Grupos de Encontro psicoterapêuticos; grupos de amigos; grupos de casais e muitos ajuntamentos de família. Os natais com os netos ganharam forma e agora fazem parte da convivência familiar.

No último ano desta década fizemos a primeira longa viagem para a Europa. Trinta dias. De uma tacada só, Suécia, Estônia, França e Espanha. Cada país com seus detalhes e suas características.

Descobri que gosto de história. Fiquei impactada ao ver de perto quanta destruição que uma guerra faz. E muito impressionada com a capacidade que alguns países, como a Estônia tem em recomeçar do zero e refazer o que foi destruído.

Gosto de paisagens. Com montanhas, com gelo, com água, com pontes, com o pôr e o nascer do sol! Minhas fotos têm poucas pessoas e muita paisagem!

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MINHA VIDA: Quarta década

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De 1977 a 1986

Filhos pequenos. Muito tempo gasto com eles. Passeios, alimentação, brincadeiras e o início da vida escolar; doencinhas, idas ao pediatra, ortodentista; natação e etc. etc. Sem contar os acidentes infantis: braço quebrado, cotonete furando o ouvido, língua cortada… Dormir quando eles dormem. Nem sempre comer…Cinema, jantar fora e passeios a sós muitas vezes ficaram para depois…Cultivamos amizades neste tempo de filhos ainda pequenos e fizemos amigos que permanecem até hoje.

Mudamos de cidade. Fomos para uma casa maior, com quintal, árvores, coelhos e cachorro…

Eliel, meu marido, progredia e subia na escalada no mundo executivo.

Eu tinha todo o pique do mundo. Cuidava de todos os detalhes dos filhos: roupa, médico, lanche, tarefas escolares, levar e buscar nas escolas…no final do dia viajava 30km para estudar a noite, na Faculdade Teológica. Dormia depois da meia noite e as 06.30h estava em pé…Ufa!

Foi a década de muitas descobertas a respeito de mim mesmo. Algumas indicavam habilidades e talentos que tenho. Outras apontavam para minhas sombras. Situações e realidades dos anos já vividos, com muitos nós, que agora, no presente, eu precisava desatar, um por um. Caso contrário, a vida ficaria truncada.

Descobri que tinha muita habilidade para compartilhar alguma coisa aprendida, com mulheres, com jovens e com casais. Conseguia trazer lições da vida de Cristo para o cotidiano com muita facilidade. Mas também foi o tempo em que sofri as piores críticas da minha vida e me decepcionei muito com a instituição religiosa. Fui injustiçada e perseguida. Vi-me deprimida, por alguns meses, mas tudo isto só serviu para que experimentasse mais e mais do mistério da intimidade espiritual com Cristo. Experiência difícil de explicar, mas que foi real na minha vida e me tornou mais humana e compassiva.

Foi também a década da crise existencial. Afinal depois que se entra nos “entas” raramente se sai! E os quarenta estavam chegando!

Fiz dieta optando por uma alimentação saudável e pouco calórica. Perdi o pouco excesso de peso que tinha e voltei a ter o peso de solteira por muitos anos.

Voltamos da cidade pequena para onde morávamos antes: Santo André. Compramos uma nova casa, numa rua tranquila e sem saída, com a intenção de não mais sair dela. Mas tudo mudou em menos de um ano. Meu marido deixou de ser executivo e foi trabalhar numa instituição religiosa como administrador. Isto significou uma quebra grande nas nossas finanças. Caiu pela metade. Mas nossa crença era que, andar nos valores que acreditávamos e investir em pessoas valia mais que tudo.

No curso de teologia me especializei em aconselhamento.

Mudança de Santo André para São Paulo, bairro Interlagos.

MINHA VIDA – Terceira década

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De 1967 a 1976

Fui trabalhar nos escritórios do grupo Matarazzo, na Pça Patriarca, Viaduto do Chá, onde hoje funciona a prefeitura de Sampa.

Terminei o Técnico em Contabilidade, equivalente ao Ensino Médio, atual. Não tinha nada a ver comigo, mas era a única opção que eu tinha. Decidi gostar da oportunidade que tinha uma vez que não tinha como fazer o que gostava.

Casei-me aos 23 anos. Tudo novo: Casa nova e emprego novo de seis horas. Fui da primeira turma que fez o curso de perfuração, hoje, digitação, da IBM. E isto facilitou muito minha vida. Não faltava emprego e ainda ganhava muito bem fazendo extras em alguns dias. Fui trabalhar na Rhodia em Santo André.

Aos vinte e quatro tive um aborto espontâneo e experimentei na solidão, a dor de perder um filho, que era só embrião, mas doeu muito! Só quem passa sabe o vazio horroroso desta perda.

Com vinte e cinco tive meu primeiro filho. Era uma mãe chucra e inexperiente, mas me esforçava muito para dar o melhor para o meu menino. Nem sempre consegui, mas me dediquei bastante e experimentei o que é o inexplicável amor materno, onde se experimenta os sentimentos mais nobres e os mais temíveis.

Em 1973, quando fui convidada, pela Olga Colomietz, para receber e hospedar parte do grupo Jovens em Cristo , filho dos JOVENS DA VERDADE, (grupo de adolescentes e jovens que decidiram sair dos templos onde havia mais religiosidade do que vida crista verdadeira, indo pelas ruas se apresentando nas praças e locais públicos anunciando que Cristo faz diferença. Que Ele é muito mais que uma imagem, e muito mais influente que as regras expostas dentro de quatro paredes das igrejas.) e fui profundamente tocada por uma força, que chamamos Espirito Santo, a crer em Cristo como Redentor e Senhor. Não resisti. Olhei para os céus e disse: “Ok! Minha vida está aqui. Deus pode fazer de mim o que quiser!”

E daí para frente, experimentei uma mudança interior, que a cada dia me levava a crer mais. Reli a vida de Cristo, nos Evangelhos e foi como um novo balsamo para minha vida. Algumas mudanças visíveis para mim:

A morte deixou de ser um monstro;

Enxerguei meus vizinhos e as demais pessoas a minha volta;

Vi o quanto havia sido desamparada, ferida e injustiçada pela vida até então experimentada;

Vi o quanto de amargura e raiva eu carregava no coração;

Novos caminhos começaram a fazer parte do meu andar e descobri a delícia de viver, ser amada e amar! Nunca mais fui a mesma!!!

Morte da minha mãe. Com apenas 43 anos, numa cirurgia mal sucedida e com uma sequência de erros médicos, perdi aquela que me deu a vida e de quem herdei características fortes e marcantes!

Aos vinte e sete fui mãe pela segunda vez. Desta vez uma menina!eu-andre-cassia

Com o nascimento da segunda criança deixei o trabalho fora de casa para me dedicar mais ao cuidado dos filhos. Fui mãe com prazer e dedicação. Sacrifiquei muito de mim mesma, por escolha. Dei meu melhor e o que acreditava que seria melhor para minhas crianças. Nem tudo funcionou. Muito do que eu achei que era bom, quando eles cresceram fiquei sabendo que foi um mal…Mas espero um olhar amoroso dos meus filhos, para aquilo em que, sem querer, os feri.

Encantada com os mistérios da vida de Cristo fui para a Faculdade Teológica estudar na ânsia de saber mais quem é Cristo Jesus.

QUASE 70

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Estou fazendo 6.9 de km rodados na vida, no dia 06-02-2016. Quase setenta!
Gerei, criei e amaternei filhos, plantei árvores e escrevi livros e quero continuar viva!
Ando em vários caminhos. Uns são meus, outros atravessaram os meus. De surpresa! Mas em cada um deles quero fazer parte do lado bom da história! Que Deus me ajude!
Quero muito mais fecundar do que produzir!
Nasci pobre. Muito pobre. Meus pais tinham uma casinha de madeira com uma cama, um armário, um fogão, uma mesa e quatro cadeiras…
Enquanto eu era gestada, numa noite cheia de estrelas meu pai entendeu que Cristo realmente era Divino e decidiu segui-lo. Dai para frente tudo mudou na vida dos meus pais e na minha.

Recebi um nome bíblico, porque Ester foi uma rainha que se preocupou mais com o povo israelita, do que com ela, e meu pai profetizou na minha vida desejando que eu ajudasse a muitos. A diferença está apenas numa letra. O escrevente acrescentou um h no meu nome, e ficou ESTHER, o que muito me extasia. Gilberto Safra, psicanalista paulistano, autografou um livro para mim e percebeu no meu nome o mesmo “th” de THeos, o nome de Deus no grego. Nunca me esqueci. E sempre desejo que algo de Divino habite em mim…e que possa refletir em outros!
No caminho da vida já penei muito.

Já fui desamparada, mas encontrei forças e driblei a morte dos afetos. Já fui humilhada, sofri mas aprendi a não olhar “por cima”; já fui explorada, chorei mas não me permiti tornar-se subserviente; já fui caluniada, enraiveci mas desapeguei-me da minha imagem e reputação; já fui injustiçada, me senti coitada, mas aprendi a trilhar o caminho do bem a troco de nada. Já fui ofendida profundamente. Mais que uma vez. Tanto por quem está longe como por aqueles que caminham próximos. Sangra a alma, principalmente quando se tem uma afeição profunda pelo ofensor, mas estas dores estão me ajudando a trilhar cada passo do difícil caminho do perdão e vou na direção de zerar o saldo dos meus ofensores. E olhando para trás percebo que todos os pesares cooperaram e ainda cooperam para o adestramento da minha natureza humana.

Com certeza também ofendi, fui injusta, ingrata e desamparei. As vezes que me lembro, lamento muito. Mas deve haver situações que nem percebi! Que a misericórdia de Deus e das pessoas, me alcance.

Importo-me menos com as críticas. Deixo as pessoas livres para falarem de mim. Bem ou mal, gostarem ou não. Já não me atinge tanto!

Meu corpo envelheceu, mas minha cabeça (algumas pessoas também) ainda pensa que ele é novo! Vivo está cisão!

Por ser um corpo velho guarda cuidadosamente cada caloria ingerida! Minha força física diminui a cada dia; a beleza do meu rosto vai se escondendo atrás de novas dobrinhas. Minhas mãos estão manchadas pelo sol e o tempo. E os anéis que já usei, não passa mais pela artrose das juntas.

Cada dia que passa falo menos. Já enfrentei todos os fantasmas do silêncio e eles já não me assustam mais. E para meu êxtase, muitas vezes, encontro com o Sagrado na ausência de palavras!

Com isto escuto mais, sinto mais a pele de cada pessoa, grande ou pequena, que se aproxima. Enxergo melhor as fisionomias, as flores e o por do sol. Deixei os óculos que faziam parte do perfil desde a adolescência. O cristalino artificial me libertou da catarata e das lentes da armação. Escuto melhor cada palavra, soluço ou suspiro. Recebo no meu ser as agonias e as vibrações de cada pessoa que chega. Corpo velho tem menos órgãos… e mais espaço!
Vejo e escuto coisas e gentes que não percebia aos vinte, nem aos quarenta…

Descubro radiante:
tem muito novo numa vida velha.

Gosto de me cuidar, mas não sou escrava da minha aparência.

Tenho certeza: Nada diminui a idade!

Sou menos religiosa. Regras humanas não me prendem mais. Mas me vejo desejosa de descobrir mais da beleza espiritual do Deus que se encarnou. E sinto saudades da companhia do Cristo Redentor e me demoro no saborear, a Sua história de vida!
Não sou mais tão pobre! Tenho mais do que preciso e quase tudo que desejo! Vivo bem! Gosto da vida!

Devo ter mais uns 10 anos. Talvez menos, talvez mais. Que a morte me pegue de surpresa…
Que eu viva mais este ano, com dignidade, sob o olhar do Cristo Remidor!
Que continue a perseguir meu alvo: ser autentica é verdadeira em todo lugar com todas as pessoas.
Que seja um tempo de “Encontros” onde eu possa fecundar e também ser fecundada! Que algo meu fique no outro e algo do outro fique em mim…

Que eu tenha gratidão por aqueles que me amam e me fazem tanto bem!

Que meus sonhos sejam, principalmente, em prol das pessoas. Com prioridade, as que estão bem próximas.

Feliz ano novo, de vida, pra mim!

Alter do Chão out.13
Amo o nascer e o por do sol. Eles anunciam que algo ficou para trás e algo novo surge no horizonte… (Foto que tirei em 2014, Alter do Chão, Santarém, Pará)

UM NOVO ANO NA MINHA VIDA

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Decidi escrever para mim hoje, que é meu aniversário.

Enquanto caminhava pela Av. Angelica e Av. Paulista fui lembrando dos anos que foram marcantes na minha vida. E vou falar de alguns hoje. Mas tenho o desejo de falar de todos em outros momentos.

O primeiro ano marcante foi o quinto, quando me acidentei caindo duma tora enorme de madeira. Fui hospitalizada e pela primeira vez fiquei longe de casa. Mas a lembrança que tenho é que recebi muito carinho das enfermeiras e dos médicos que cuidaram de mim até minha completa restauração.

O segundo ano marcante na minha consciência foi o sétimo. Eu estava no chamado primeiro ano escolar daquela época. Hoje seria o segundo. Minha professora vinha da cidade para lecionar. Viajava mais ou menos meia hora de ônibus e meu pai levava um cavalo até o ponto onde ela descia. Ele voltava a pé e a professora a cavalo. A tarde meu pai caminhava até o mesmo lugar para trazer o cavalo de volta. Meus dentes eram quase todos cariados e Dona Ivone percebeu. Nas férias do final de ano ela conversou com meus pais e me levou para ficar dois meses em sua casa para cuidar dos dentes.

O terceiro ano marcante foi quando tinha dez anos. Tinha feito o terceiro ano escolar e precisava continuar. Como na colônia agrícola em que eu morava só tinha até o terceiro, fui morar na casa do meu avô materno que morava perto de uma cidade pequena, onde depois de caminhar uma hora eu chegava para cursar o quarto ano. Um ano de aventuras. Eu tinha muito medo de caminhar pelo cafezal. Medo de cobra. Medo de ser atacada por algum homem, o que não era tão raro naquele tempo. Mas nunca deixei de ir a escola. Um ano depois estava de volta à casa dos meus pais.

O quarto ano marcante foi aos 14. Meus pais continuavam na lavoura e moravam distante da cidade onde havia a possibilidade de continuar estudando. Era impossível continuar os estudos sem que deixasse a casa dos meus pais. Meu pai viu minha necessidade muito mais do que o apego que tinha comigo. O pastor da minha igreja viu a possibilidade de cooperar para que eu tivesse uma qualidade de vida melhor do que a que já tinha. Fez um acordo com meu pai e sendo ainda quase uma criança deixei a casa dos meus pais e fui morar na cidade.

O quinto ano marcante, foi aos 19 anos, logo depois de terminar o chamado ginásio, hoje fundamental II. Depois de algumas cartas, ficou acertado com uma tia da minha mãe que eu viria para São Paulo para trabalhar e continuar estudando. E assim cheguei  em Sampa no ano de 1966 deixando atrás meus pais, meus irmãos, minha cultura e muita história para contar. Era realmente uma nova vida. Fui morar com pessoas que eu nunca tinha visto. Chorava quase todas as noites. A falta dos meus familiares doía muito, mesmo sabendo que tudo que tinha iria facilitar meu futuro. Trabalhava no centro de São Paulo, Viaduto do Chá, onde hoje é a prefeitura. Viajava todos os dias indo e vindo do trabalho. Estudava a noite, muitas vezes sem jantar e ia dormir muitas vezes com o estomago vazio porque tinha perdido a hora do jantar para não perder a hora do colegial técnico em contabilidade. Comi “o pão que o diabo amassou” mas nunca desisti. E tantas coisas aconteceram, mas vou encerrar por aqui com a intenção de continuar falando de outros anos que marcaram minha vida profundamente em  qualquer dia vindouro.

Hoje estou feliz e inicio mais um ciclo da minha vida com a sensação de realização e de que “A VIDA VALE A PENA!” E eu gosto muito de viver!

COLHENDO ALGODÃO

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Tenho o privilégio de cortar cabelo com uma das maiores artistas em cabelo de São Paulo.

Sua casa de beleza é uma linda mansão e está localizada num bairro fino e nobre da capital paulista. Como se não bastasse ser artista em cabelos ela é também uma decoradora excêntrica e de uma delicadeza na mistura das flores e frutos que encanta e agrada ao mais exigente critério de decoração. Nesta ultima terça feira, estive com a Lenir. E para minha surpresa, ao passar pela recepção olhando do lado direito do grande salão logo na entrada, o que vejo? Um arranjo com um pé de algodão. As maças já estavam escurecidas e abertas deixando o branco algodão amostra dando um encanto especial naquele lugar. Ao contemplar o algodoeiro, parei e fiquei ali alguns segundos, para que viesse a minha memória todas as cenas da minha infância, enquanto colhedora de algodão:

Quatro horas da manhã!

Meu pai anuncia: “Levantando, que o dia é longo!”

Como eu gostaria que isto fosse apenas um sonho. Abro os olhos. Devagar. E rapidamente descubro que não é domingo, e não é sonho! Era preciso levantar e cooperar para que possamos sair ainda bem antes do sol despontar para a colheita de algodão.

O fogo já estava aceso no fogão a lenha. A água dentro de uma chaleira de três litros fervia enquanto um grande coador de pano, suspenso numa armação de metal e inserido dentro de um bule grande de alumínio,  já esperava, com cinco colheres bem cheias de pó de café, torrado por minha mãe com minha ajuda e moído por todos nós os filhos que obedecíamos a escala do dia entre recolher lenha, lavar louça e moer café. Aos poucos o cheiro do café invadia a pequena casa despertando o apetite para uma caneca do liquido bem açucarado acompanhado de uma grossa fatia de pão.

Enquanto isto, meu pai já tinha todos os apetrechos organizados e uma cavalo já atrelado numa carroça, que carregava tudo o que precisaríamos para a colheita do dia e também toda a nossa refeição que era pobre na diversidade mas bem abundante na quantidade.

Caminhávamos mais ou menos por uma hora por uma estrada de terra. Eu gostava demais desta caminhada. Ainda havia estrelas no céu que aos poucos iam desaparecendo com o brilho do sol que despontava majestoso no horizonte. Eu me deliciava com o cheiro do orvalho da noite que umedecia a terra exalando um aroma que só os moradores de zona rural que acordam cedo, conhecem. As várias espécies de pássaros cantando formavam uma sinfonia inigualável. Mesmo não conhecendo nada de música, eu fechava os olhos e permitia que aquele canto entrasse pelos meus ouvidos e penetrassem até o mais fundo do meu ser. Caminhar por esta estrada, logo pela manhã, era o melhor do dia. Aliás, era a única coisa boa do dia.

Eu tinha doze anos. Meu corpo era alto e franzino. Meu cabelo espetado, meu semblante um pouco abatido, mas meus olhos transmitiam tanta vivacidade que chamava a atenção de todos a minha volta. Não havia TVs, tínhamos pouco acesso ao único radio de pilha da casa. Eu não sabia como vivia o restante das pessoas no mundo. Nem as que estavam na cidade mais próxima. Mas uma coisa no meu coração eu sabia: Tudo era muito sacrifício para eu, que na passava de uma criança frágil e mal alimentada. E com certeza eu e minha família éramos vitimas de muita injustiça social. Deveria haver um jeito de viver de um modo mais digno.

De longe já se via a plantação de algodão, todo branco. Parecia um lenço de linho alvo que se estendia por muitos alqueires de terra. Era ali que ficaríamos ate as 16.00h colhendo algodão e só parando para duas refeições; o almoço as 9.00 e o café as 13.00h. O almoço, em geral conservava-se morno e se constituía de uma boa concha de feijão, muito arroz e alguma carne ou peixe salgado. Já o chamado “café” era apenas uma caneca de café com um pedaço de pão caseiro, ou bolinho de chuva. Divino mesmo era quando minha mãe se dispunha a fazer curau e podíamos a regalia de devorá-lo no café da uma da tarde. Hum…ainda sinto o gosto daquele milho verde ralado, coado, colocado num tacho e engrossado no fogo, feito no quintal, sem nenhuma mistura, a não ser açúcar.

Mas pensar na comida era apenas uma saída fantasiosa para escapar por alguns momentos do tormento da tarefa de transferir os montinhos brancos das “maças” para o balaio que ia empurrando enquanto com as pernas enquanto as mãos não paravam a catação. Ou então era amarrado em minha cintura um saco que ia até os pés. Este saco ficava de tal forma a manter a abertura da boca aberta para facilitar o trabalho de jogar para dentro dele o fio precioso. Acontece que estas maças, se tornavam endurecidas, escuras e abriam em quatro partes, expondo todo seu conteúdo que parecia uma pluma branca com caroços escuros pelo meio. Na extremidade, cada parte tinha uma ponta aguda, que uma vez endurecida penetrava por baixo da cutícula ferindo toda a volta das unhas. Além de ferir, a medida que elas furavam, levantavam também a pele da cutícula, muitas vezes até sangrar. Meus dedos estavam sempre feridos e inchados em torno de todas as minhas unhas. Mas não tinha escolha a não ser enfrentar esta situação do nascer do sol até o entardecer. No final do dia tínhamos que pesar todo o algodão e anotar o peso. Nosso soldo vinha por quilo de algodão colhido e empacotado em fardos. E foi nesta situação também que comecei a conhecer o jeitinho (desonesto) brasileiro. Meu pai sempre jogava a água que sobrava dentro dos fardos. Isto sem contar que muitas vezes, os fardos se transformavam em banheiro masculino. Apenas dos homens que nesta situação eram privilegiados pela anatomia do corpo humano que facilitava o esvaziar a bexiga dentro dos fardos.

Sei que é maravilhoso vestir uma camiseta ou deitar sobre e sob lençóis mil, três mil, fios de algodão. É bom também observar quantas utilidades que tem um chumaço de algodão. Mas jamais me esquecerei do sono interrompido na madrugada e dos meus dedos feridos enquanto colhia o algodão que dali iam em fardos em cima de caminhões “trivelato” para as industrias de fiação e tecelagem.

Hoje, as colheitas de algodão, na maioria dos países acontecem, de forma mais mecanizada e diferente. Mas com certeza ainda existem muitas crianças levantando as quatro da manhã para o trabalho.

QUARENTA E DOIS ANOS…

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MAIS UM NIVER DE CASAMENTO

Quarenta e dois anos se passaram desde aquele dia chuvoso durante o dia e sem luz a noite…Nos olhares de hoje éramos jovens demais, mas resolvemos juntar nossas vidas. Eu muito rebelde: sem aliança, sem pai levando no altar, sem compromisso de ficar junto a vida toda. Ele paciente e sempre amoroso! Mais uma coisa combinamos: seriamos honestos e verdadeiros para com o outro, sempre.
O que era amizade, virou desejo de ficar junto. O que era “até quando der” virou compromisso, de fidelidade, renovado a cada manhã.
Nem sempre “sinto” amor. As vezes sinto mesmo é desencanto. Descobri que a recíproca também é verdadeira. Mas é a vida de quem vive juntos e não tem a intenção de esconder os verdadeiros sentimentos. Mas o sentir vontade de distanciar, não tira do meu coração o desejo de fazer valer o compromisso de permanecer, de cuidar bem, de ser carinhosa e de continuar fiel e honesta.
Hoje nos dividimos muito: com as pessoas que atendo, com a Comunidade (religiosa), com alguns amigos, com os filhos, e principalmente com os netos. Mas nestas convivências mantemos o desejo de voltar e ficar a sós, sem ninguém por perto. Nossa casa é muito aberta, como aberto ficou nosso coração. Mas curtimos cada momento onde a casa e o tempo é todo nosso!

Como aconteceu?

É uma caminhada:
Ficamos cansados
As vezes machucados
Subimos morros,
Ultrapassamos barreiras
Caminhamos na beira de abismos;
Ferimos os pés,
Choramos. Sangramos!
Foi preciso esperar!
Bichos e feras urraram
Tivemos medo
E ficamos mais pertinho,
Um do outro.
Um caiu de cansado,
O outro deu a mão.
Um encolheu a mão,
O outro ficou por perto,
Atravessamos rios,
Fomos tragados
Pela correnteza.
A corda foi lançada,
Agarramos.
Um barco chegou.
Novamente em segurança.
Andamos a margem,
Contemplando cada florzinha.
Fomos marcados,
Um pelo o outro.
E estamos misturados.
Não dá para separar
Sem levar em si o outro.
Caminhamos ainda
Para o topo da montanha.
JUNTOS!

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