Dormindo com os Livros!

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Na última quinta-feira um amigo me perguntou: “Desde quando você gosta de ler?”

Recorri a minha memória e descobri que não tinha uma marca de quando começou meu interesse por livros. Então respondi: “Desde sempre”. Como sexagenária, sou do tempo quando não havia ainda os veículos de comunicação que existem hoje. Além do mais, meus pais eram sem recursos financeiros e não tínhamos acesso nem aos meios possíveis da época: como TV, jornal, maquina de datilografia e telefone. Só tínhamos o rádio. E por meio deste eu descobri, muito pequena ainda, que existiam livros. E tinha um desejo desesperador para lê-los.

Aos nove anos pedi ao meu pai que me comprasse uma série de livros: Heróis Cristãos, que contava as histórias de homens e mulheres desbravadores motivados a espalhar pelo mundo, o amor e os princípios da fé crista. Os livros vieram pelo correio e demoraram quase dois meses, desde o meu pedido, via carta, até o dia em que meu pai pode ir buscá-los no correio, da cidade mais próxima – Padre Nóbrega. E me deliciei lendo e relendo os doze volumes.

A vida foi generosa para comigo. O pastor da comunidade religiosa que freqüentávamos viu o meu interesse em estudar e propôs para meu pai uma troca – eu moraria na casa dele, ajudaria com os quatro filhos e os serviços caseiros e em troca eu estudaria e eles cuidariam de mim. E assim foi que deixei os serviços da plantação de eucaliptos, juntei os poucos pertences que tinha e fui morar na cidade.

A casa não era muito grande. Tinha sala, copa, cozinha grande, escritório e dois quartos. Um dos quartos era ocupado elo casal, o outro pelas crianças. Então sobrou o escritório, onde numa caminha de armar eu dormia.

O maravilhoso é que neste escritório estava a biblioteca imensa do pastor. Que guardava desde seleções e revistas, até o livro por mais simples que fosse. Todas as noites, depois de chegar do colégio, por mais cansada que estivesse eu gastava algum tempo lendo algum livro. Como adolescente meu primeiro interesse foi sobre sexo. E li tudo que tinha disponível. Logo me interessei por psicologia e havia na biblioteca muita coisa sobre Freud e a psicanálise. Li tudo também. Chegou a vez da auto-ajuda: Li Dale Carnegie. Bem depois deste, fui lendo outros. Alguns com muito interesse, outros nem tanto.

Então, eu não sei quando começou meu interesse por leitura, mas sei que “dormir com os livros” com certeza despertou e cristalizou em mim o interesse que já tinha pela leitura.

Abraço.

14/12/2009

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Sapatos

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Meus sapatos novos, bonitos e derrapantes…Minha queda espetacular!!!

Sapatos sempre foi algo importante na minha vida. Primeiro porque boa parte da minha vida eu vivi sem eles. Ainda me lembro, muito pequena, eu tinha apenas um par de chinelos de borracha e um par de alpargatas. Quando um pouco mais crescidinha ganhei também um par de sandálias de plástico. Mas na verdade a maior parte do tempo eu andava era descalça mesmo, pisando em lamas, formigueiros, pregos, espinhos, cacos de vidro e outras coisas que agrediam, as vezes violentamente a sola do meu pé. Mas sempre que via algum modelo de sapatos eu tinha muita vontade de calçá-los. Segundo, porque quando finalmente por volta dos sete anos tive meu primeiro par de sapatos o tamanho do meu pé não foi considerado. Eram usados e bonitos e vieram como presente em algum pacote de roupas que volta e meia chegava a minha casa. Conhecem o ditado que diz: “Pé de pobre não tem número.”? Pois é, eu sei o quanto isto é verdade. A minha ânsia de possuir sapatos era tão grande que rapidinho os calcei. Apertavam demais. Mas não desisti e com isto ganhei duas bolhas no calcanhar que viraram feridas e se fixaram na minha memória de tal forma que ainda me lembro muito bem do incômodo delas. E assim foi. Os sapatos eram apertados ou folgados, nunca confortáveis. Por isso acostumei com sapatos desconfortáveis e deformantes. Na verdade eu nem imaginava que pudesse existir sapatos, digamos até prazerosos. Isto me faz lembrar a canção Sapato 36, de Raul Seixas:
“Eu calço é trinta e sete, meu pai me dá trinta e seis;
Dói mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Pai eu já to crescidinho
Pague pra ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto.”

Lembro-me ainda de um sapato do pé direito, apenas com metade da sola. Eu ia para escola com este sapato. Tinha nove anos e quase morri de vergonha quando uma coleguinha, filha do chefe da ferrovia, descobriu o estado miserável do meu sapato. Ela, com ar de preocupação e compaixão, admirada, gritou para a mãe: “Mãe, olha como está o sapato dela.” E eu, sem saber onde me esconder, menti descaradamente, dizendo que só naquele momento estava percebendo a falta de sola.
O tempo foi passando e a vida foi generosa para comigo. Já casada e sem dificuldades financeiras comprava os sapatos que não apertavam os meus pés, mas também não me disponha a gastar muito e ficava nos pares que nem sempre traziam conforto. Com o tempo aprendi a ser bondosa comigo e também com os meus pés e passei a adquirir sapatos exageradamente confortáveis. Era como se não tivesse os pés calçados. Podia caminhar por muito tempo e meus sapatos não mais me apertavam. Porém, não eram os sapatos mais bonitos. Eu sempre me perguntava por que os sapatos baixos e confortáveis, não eram bonitos?
A terceira razão da importância dos sapatos para mim é bem recente. Encontrei sapatos de duas fabricas que me encantaram, pelo designer bonito: Os da Luz da lua e os da Claudina. Esta última produziu a marca “alla pugachova” (nome da cantora pop, russa, famosa) que são modelos lindos e confortáveis. Como há muito tempo deixei de ser miserável comigo, resolvi gastar um pouco mais e adquirir alguns pares de sapatos bonitos. Toda contente com a minha aquisição, calcei meu primeiro alla pugachova e sai para almoçar na companhia do meu marido. Na primeira esquina que cheguei, ao colocar o pé direito no rebaixo feito para as cadeiras de rodas, que são comuns na Vila Clementino, derrapei fantasticamente, deslizando como num espacate, até que meu corpo, com a perna esquerda totalmente dobrada para fora, encontrasse o solo. Levantei, com uma dor insuportável na região do joelho. Olhei para o sapato. Constatei o quanto a sola do meu novo sapato era lisa e escorregadia. Era como se ela tivesse sido encerada com parafina.
O resultado de tudo isto foi uma torção muito séria; muito tempo num pronto socorro, onde acabei por desistir do atendimento. Fui para uma clínica onde fiquei mais tempo na espera, porém agora recebia um tratamento cuidadoso. Sai de lá com a perna totalmente imobilizada com a duração prevista para três semanas. Finalmente os cuidados do meu médico ortopedista, que me receitou um antiinflamatório e solicitou um exame de ressonância magnética (êta exame chato) para confirmar se tenho algum ligamento rompido no joelho.
Sapatos? Parece que não me dou muito bem com eles. Acho que nem eles comigo. Deve ser por isso que adoro ficar descalça!
Agora já descobri que nas próprias lojas onde são vendidos há também adesivos antiderrapantes para as solas. Ou, nas sapatarias, os sapateiros colocam uma sola antiderrapante por cima da que vem da fábrica, protegendo assim as usuárias de quedas.
A pergunta é: Por que as fábricas famosas e bem sucedidas no mercado já não fazem este tipo de trabalho?
Bem, vou entrar em contato com a Claudina e mandar este artigo para eles.
Enquanto isto, experimento, como é que se sente alguém que tem uma vida profissional e cheia de atividades, como eu, e é forçada a parar, por causa de uma queda e uma perna imobilizada.

Chegou o Natal!

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Por muito anos da minha vida o Natal foi uma data mais de dores e sofrimentos do que qualquer outra coisa. Quando pequena fui ensinada a colocar meus sapatos na janela, na véspera do Natal, que durante a noite Papai Noel passava e deixava um presente. Fiz isto por alguns anos, mas meus pais não tiveram a sensibilidade de colocar algum presentinho nos meus sapatos. Então pela manhã eu levantava ansiosa para ver o que tinha nos meus sapatos e nunca tinha nada. Eu me enchia de culpa. Achava que era ruim demais para ser lembrada por papai Noel. Ou então pensava que morava muito longe e ele não tivera tempo suficiente para chegar até minha casa. Pensava ainda que não tinha nenhuma importância. Era pobre demais para ser lembrada! Felizmente fui crescendo e descobri a verdade. Porém, descobrir que Papai Noel é apenas uma figura do Natal não tirou de mim o desconforto, a frustração e a tristeza, que ficara daqueles anos onde eu sofria tanto por constatar que meus sapatos estavam vazios. Então por muitos natais vinha a minha lembrança estes sentimentos de: sou ruim, moro muito longe e sou muito pobre! Por isso sou esquecida!

Quando já tinha 26 anos, no começo do mês de dezembro eu comecei a acreditar que Deus me amava porque sem que eu fizesse o menor movimento para caminhar na direção dele, Ele me achou e graciosamente me alcançou de tal forma que foi impossível continuar sendo a mesma pessoa. A crença de que Deus se fizera gente em Cristo e morrera na cruz para que eu tivesse Vida começou a fazer sentido para mim. Quando chegou o dia 25 daquele mês, pela primeira vez, eu comemorei o natal como a data em que se festeja o nascimento de Cristo. Mas ainda não tinha me apossado de todo o mistério que envolve esta data tão significativa.

Bem, na verdade, Cristo não nasceu no dia 25 de dezembro, mas isto nem faz diferença diante do significado verdadeiro do Natal!

Hoje Natal para mim, é a celebração dos céus descendo a terra; a distância entre nós e as alturas, desapareceu! O Eterno se torna limitado ao tempo. Natal é a fecundação do Sagrado no humano. Desta fertilização resultou a gestação e o nascimento de Cristo Redentor; é Deus descendo das alturas e nascendo como um bebê envolto em panos numa manjedoura no estábulo. O Todo Poderoso se torna dependente. Necessita do seio de Maria para amamentá-lo, do seu colo para o aconchego e dos seus cuidados para crescer.

A estalagem era o lugar de hospedagem e de reuniões para a troca de idéias; o estábulo, além de abrigar os animais, era o lugar para os esquecidos, para os mal vistos, para os ignorados. E foi lá que Maria deu à luz o menino Jesus. Deus “desceu” dos céus e começou sua vida como encarnado entre os simples, os transgressores, e os esquecidos. Viveu todas as nossas possíveis dores e conhece até os nossos impossíveis caminhos. Inocente e injustiçado, morreu como bandido cumprindo pena de morte. Então conhece também, até as situações, por mais degradantes que sejam, de um ser humano. Não há trilhas novas ou desconhecidas. Todas já foram abertas e percorridas pelo Deus que se fez gente. Diante disto, posso acreditar:

eu não sou esquecida, não moro longe, minha transgressão é perdoada, tenho muito valor, e sou presenteada com a Graça redentora em mim!

Que neste Natal você possa se alegrar com os presentes e com tudo que diz respeito à festa natalina! Mas possa também permitir que o Sagrado lhe penetre, e que esta penetração resulte na gestação da graça, da misericórdia e da redenção em você; e que ao nascer alcance você mesmo e todos os que estão a sua volta.

Então?! Rendamo-nos como Maria! E Deus nascerá em nós e de nós. Todos os dias!

É Natal!

“Mas para a terra que estava aflita não continuará na obscuridade…O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz….Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu…” Profeta Isaias Século VIII a.C.

Diminuindo o passo

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A coisa mais deliciosa foi ser escolhida, entre os quatro adultos presentes, para ver aqueles dois bracinhos de dois anos estendidos na minha direção me pedindo colo!
Era dezembro de 2007 e era a inauguração da árvore de natal gigantesca levantada no Parque Ibirapuera. Testei e vi que aguentava bem, aquele garotinho encavalado, de lado, na minha cintura revelando gostar do conforto que tinha enquanto eu andava metros e mais metros em direção a árvore e ao local dos shows, próximo da árvore!

O que eu tinha esquecido é que já tenho 61 anos e por mais bem condicionada que estava, havia um desgaste natural de todos meus músculos que merecia ser respeitado!Alguns dias depois uma dor não tão forte, mas enervante, não me deixava esquecer que tinha quadril! No dia seguinte uma piora acentuada, anti-inflatórios potentes, ortopedista, fisioterapeuta, mil exames (até ressonância magnética, que em são juízo, nunca mais vou fazer)e oito meses se foram.

Já estou melhor! Mas tudo indica que naquele dia de dezembro fiz um esforço enorme de tal forma que sensibilizei um dos músculos da minha perna que agora reage com dor, em esforços bem menores!Diminui o passo. As vezes com intervalos de até 30 segundos para dar o próximo passo.Com isto estou percebendo melhor as pessoas que antes me atrapalhavam: os velhinhos de bengalas ou de passos curtos e lentos, as mães com carrinhos e seus bebês, as mães segurando criança pequenas ou no colo ou pelas mãos, os camelôs, os namorados sem pressa e os pedintes e moradores de rua.

Quando percebi que estava notando esta parte da população, pensei: “Me aguardem. Logo, logo farei parte definitivamente do time dos que andam devagar.” Digo logo, porque me médico já diagnosticou:” Esther, vc não tem nada grave, apenas uma inflamação que não compromete nem a força e nem o movimento das suas pernas.” Ótima notícia.Mas estou muito perto de fazer parte da população chamada IDOSA. Então é só uma questão de tempo.

Enquanto este tempo não chega, ainda poderei pegar meu lindinho muitas vezes. E como não sou mais a mesma serei mais tolerante e amorosa com os que caminham devagar. Prestarei mais atenção em cada um, lhes dirigirei a palavra,o olhar e o sorriso.E mesmo estando sem dores diminuirei meus passos!

Obrigada “Fael” (Rafael) querido. Você me ajudou muito!

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