COLHENDO ALGODÃO

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Tenho o privilégio de cortar cabelo com uma das maiores artistas em cabelo de São Paulo.

Sua casa de beleza é uma linda mansão e está localizada num bairro fino e nobre da capital paulista. Como se não bastasse ser artista em cabelos ela é também uma decoradora excêntrica e de uma delicadeza na mistura das flores e frutos que encanta e agrada ao mais exigente critério de decoração. Nesta ultima terça feira, estive com a Lenir. E para minha surpresa, ao passar pela recepção olhando do lado direito do grande salão logo na entrada, o que vejo? Um arranjo com um pé de algodão. As maças já estavam escurecidas e abertas deixando o branco algodão amostra dando um encanto especial naquele lugar. Ao contemplar o algodoeiro, parei e fiquei ali alguns segundos, para que viesse a minha memória todas as cenas da minha infância, enquanto colhedora de algodão:

Quatro horas da manhã!

Meu pai anuncia: “Levantando, que o dia é longo!”

Como eu gostaria que isto fosse apenas um sonho. Abro os olhos. Devagar. E rapidamente descubro que não é domingo, e não é sonho! Era preciso levantar e cooperar para que possamos sair ainda bem antes do sol despontar para a colheita de algodão.

O fogo já estava aceso no fogão a lenha. A água dentro de uma chaleira de três litros fervia enquanto um grande coador de pano, suspenso numa armação de metal e inserido dentro de um bule grande de alumínio,  já esperava, com cinco colheres bem cheias de pó de café, torrado por minha mãe com minha ajuda e moído por todos nós os filhos que obedecíamos a escala do dia entre recolher lenha, lavar louça e moer café. Aos poucos o cheiro do café invadia a pequena casa despertando o apetite para uma caneca do liquido bem açucarado acompanhado de uma grossa fatia de pão.

Enquanto isto, meu pai já tinha todos os apetrechos organizados e uma cavalo já atrelado numa carroça, que carregava tudo o que precisaríamos para a colheita do dia e também toda a nossa refeição que era pobre na diversidade mas bem abundante na quantidade.

Caminhávamos mais ou menos por uma hora por uma estrada de terra. Eu gostava demais desta caminhada. Ainda havia estrelas no céu que aos poucos iam desaparecendo com o brilho do sol que despontava majestoso no horizonte. Eu me deliciava com o cheiro do orvalho da noite que umedecia a terra exalando um aroma que só os moradores de zona rural que acordam cedo, conhecem. As várias espécies de pássaros cantando formavam uma sinfonia inigualável. Mesmo não conhecendo nada de música, eu fechava os olhos e permitia que aquele canto entrasse pelos meus ouvidos e penetrassem até o mais fundo do meu ser. Caminhar por esta estrada, logo pela manhã, era o melhor do dia. Aliás, era a única coisa boa do dia.

Eu tinha doze anos. Meu corpo era alto e franzino. Meu cabelo espetado, meu semblante um pouco abatido, mas meus olhos transmitiam tanta vivacidade que chamava a atenção de todos a minha volta. Não havia TVs, tínhamos pouco acesso ao único radio de pilha da casa. Eu não sabia como vivia o restante das pessoas no mundo. Nem as que estavam na cidade mais próxima. Mas uma coisa no meu coração eu sabia: Tudo era muito sacrifício para eu, que na passava de uma criança frágil e mal alimentada. E com certeza eu e minha família éramos vitimas de muita injustiça social. Deveria haver um jeito de viver de um modo mais digno.

De longe já se via a plantação de algodão, todo branco. Parecia um lenço de linho alvo que se estendia por muitos alqueires de terra. Era ali que ficaríamos ate as 16.00h colhendo algodão e só parando para duas refeições; o almoço as 9.00 e o café as 13.00h. O almoço, em geral conservava-se morno e se constituía de uma boa concha de feijão, muito arroz e alguma carne ou peixe salgado. Já o chamado “café” era apenas uma caneca de café com um pedaço de pão caseiro, ou bolinho de chuva. Divino mesmo era quando minha mãe se dispunha a fazer curau e podíamos a regalia de devorá-lo no café da uma da tarde. Hum…ainda sinto o gosto daquele milho verde ralado, coado, colocado num tacho e engrossado no fogo, feito no quintal, sem nenhuma mistura, a não ser açúcar.

Mas pensar na comida era apenas uma saída fantasiosa para escapar por alguns momentos do tormento da tarefa de transferir os montinhos brancos das “maças” para o balaio que ia empurrando enquanto com as pernas enquanto as mãos não paravam a catação. Ou então era amarrado em minha cintura um saco que ia até os pés. Este saco ficava de tal forma a manter a abertura da boca aberta para facilitar o trabalho de jogar para dentro dele o fio precioso. Acontece que estas maças, se tornavam endurecidas, escuras e abriam em quatro partes, expondo todo seu conteúdo que parecia uma pluma branca com caroços escuros pelo meio. Na extremidade, cada parte tinha uma ponta aguda, que uma vez endurecida penetrava por baixo da cutícula ferindo toda a volta das unhas. Além de ferir, a medida que elas furavam, levantavam também a pele da cutícula, muitas vezes até sangrar. Meus dedos estavam sempre feridos e inchados em torno de todas as minhas unhas. Mas não tinha escolha a não ser enfrentar esta situação do nascer do sol até o entardecer. No final do dia tínhamos que pesar todo o algodão e anotar o peso. Nosso soldo vinha por quilo de algodão colhido e empacotado em fardos. E foi nesta situação também que comecei a conhecer o jeitinho (desonesto) brasileiro. Meu pai sempre jogava a água que sobrava dentro dos fardos. Isto sem contar que muitas vezes, os fardos se transformavam em banheiro masculino. Apenas dos homens que nesta situação eram privilegiados pela anatomia do corpo humano que facilitava o esvaziar a bexiga dentro dos fardos.

Sei que é maravilhoso vestir uma camiseta ou deitar sobre e sob lençóis mil, três mil, fios de algodão. É bom também observar quantas utilidades que tem um chumaço de algodão. Mas jamais me esquecerei do sono interrompido na madrugada e dos meus dedos feridos enquanto colhia o algodão que dali iam em fardos em cima de caminhões “trivelato” para as industrias de fiação e tecelagem.

Hoje, as colheitas de algodão, na maioria dos países acontecem, de forma mais mecanizada e diferente. Mas com certeza ainda existem muitas crianças levantando as quatro da manhã para o trabalho.

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SORTE OU TRABALHO

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Diálogo com Paolo

Paolo, 8 anos, tinha caminhado, na companhia do Avô, voltando da ortodentista, sob um sol escaldante e muita poluição, por 1,5km. Chegou, no meu consultório cansado e com muito calor. Entrou na minha sala sentiu o ar refrigerado a 21ºc, abriu os braços, esticou o rosto para frente, deixando se envolver pelo alívio, que sentia, do calor escaldante, falou:

“Nossa Vó! Que sorte você tem: sua sala é linda, cheia de cores e a temperatura é deliciosa!”

Era visível o conforto que ele sentia, ali na minha frente. Fiquei emocionada, ao ouvir tão bem expressado o que ele estava vendo e sentindo. Mas também pensei na palavra sorte. E imediatamente, veio na minha memória, que, realmente, muitas oportunidades apareceram e ainda aparecem na minha frente. Mas proporcionar aquele prazer para o garoto não era só “sorte”. Então, respondi:

” Acho que não é só sorte…” Neste momento, ele interrompeu e disse:

” É trabalho, né Vó?”

De novo, emoção por ver a conclusão tão rápida dele. Então, relembrei por uns instantes como ele tem sido com suas tarefas escolares e seus pertences. Ele se preocupa com as lições de casa, estuda para as provas e é cuidadoso, como criança, com suas coisas. Na minha mente projetei aquele garoto magro e ágil para o futuro, e falei o que veio na minha imaginação:

” Você também poderá ter um lugar bonito e agradável para trabalhar. Porque você é esforçado e tem sido responsável com os seus deveres. Com certeza, o seu trabalho lhe dará este privilégio.”

Ele mais simpático do que normalmente é, olhou para mim, deu um lindo sorriso, e concordou com um tom indagativo: “É mesmo!?”